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Como nossos futuros atletas estão sendo formados 3

Amigos do Basquetebol

Segue a segunda parte do texto: O treinador de basquetebol: pedagogo e psicólogo.

O treinador de basquetebol e os aspectos que envolvem a formação: o âmbito psicológico

Apesar de vários autores reconhecerem a importância da preparação psicológica no desenvolvimento de uma carreira esportiva, ainda há uma grande falta de sistematização do trabalho e, por que não dizer, falta de conhecimento do impacto dos aspectos psicológicos presentes em uma atividade esportiva, especialmente no contexto da competição.

A realidade esportiva mostra que, na maioria das equipes de base,  o treinador também exerce a função de psicólogo, aumentando, desta forma, a carga de responsabilidade sobre as ações de seus atletas e do grupo.

No caso específico do basquetebol, pode-se afirmar que este é um esporte recheado de nuanças psicológicas envolvendo aspectos como a ansiedade, motivação, stress, medo e diferentes percepções da realidade do jogo, em virtude das constantes alterações de seu ambiente e de suas circunstâncias.

No âmbito psicológico, o basquetebol apresenta quatro áreas que devem ser trabalhadas:

  • Cognitiva: referente às possibilidades de aprendizagem e compreensão das informações necessárias para o bom desempenho esportivo
  • Afetivo-emocional: referente às emoções envolvidas nas tarefas relacionadas ao jogo e aos motivos de sua realização
  • Psicossocial: referente aos relacionamentos presentes no ambiente esportivo
  • Atitudinal: referente às ações definidas pelo atleta e pelo grupo em relação ao que foi treinado.

Em todas essas áreas o treinador terá interferências diretas, tornando-se o agente que orientará seus atletas para melhor lidar com as situações que, de alguma forma, poderão interferir no processo de desenvolvimento do jovem.

Mas o treinador poderá ser o agente desestabilizador de todo o processo. Isto ocorrerá quando o próprio treinador for o agente causador de stress. No contexto competitivo o stress pode ser gerado a partir da complexidade da tarefa, das pressões exercidas pelas pessoas envolvidas no processo, da definição irreal dos objetivos, do comportamento dos adultos, do nível de expectativa (pessoal e dos outros), do excesso de treinamento e das cobranças exageradas. Numa análise muito simples, pode-se inferir que o treinador tem uma parcela de participação em todas as situações citadas.

Atitudes como não reconhecer o esforço dos atletas, gritar ou reclamar muito, enfatizar somente aspectos negativos, cometer injustiças, não apontar soluções frente aos problemas provenientes das situações específicas do jogo ou da competição, propor atividades consideradas ameaçadoras (e não desafiadoras) e privilegiar determinados atletas podem ser entendidas como geradoras de stress e influenciar negativamente o desempenho de jovens atletas e, até mesmo, provocar o abandono das atividades esportivas.

Isso indica que o efeito do comportamento do treinador é mediado pelo significado que os atletas atribuem a ele, e pelo o que os atletas lembram desse comportamento, sendo que a forma de interpretação dessas ações pelas crianças e adolescentes afeta a maneira como eles avaliam sua participação esportiva.

Atitudes frente ao processo de formação esportiva e o que se espera de um bom treinador

 

Conhecendo os aspectos que permeiam as atividades esportivas (já citados) e as possibilidades de geração de stress, tanto pelas características do esporte, quanto por parte do próprio treinador, o profissional que atua no esporte infantil (em nível de formação) pode propor atividades que se coadunem com as expectativas e necessidades desses jovens explorando sua capacidade de encontrar soluções para os problemas apresentados e não tornando-os atletas robotizados sempre dependentes de roteiros pré estabelecidos e sem a capacidade de tomar suas próprias  decisões.

Seria razoável pensar-se que, em nível de formação, a ênfase no processo e buscando resultados a longo prazo seria a atitude mais correta a ser adotada por um treinador. Isto implica na maior participação e na concessão de oportunidades a todos, independentemente de seu nível de habilidade. Significa privilegiar o esforço e não o resultado.

No entanto, muitos treinadores, por diferentes razões pensam somente nos resultados imediatos, privilegiando os mais habilidosos e deixando de lado muitos jovens, atropelando o processo formativo e antecipando uma série de eventos que, em curto prazo, são até interessantes (vitórias, campeonatos), mas que poderão acelerar o processo de abandono dos jovens atletas.

Fica evidente que o treinador deve ter uma participação ativa no processo de formação do jovem, porém provido de conhecimentos suficientes que permitam uma atuação segura e benéfica para os futuros atletas. Esse conhecimento deve ocorrer em quatro domínios:

  • conhecimento do indivíduo com quem se vai trabalhar (sua realidade biológica, psicológica e social)
  • conhecimento da modalidade com a qual irá trabalhar (aspectos físicos, técnicos e táticos)
  • definição adequada de métodos e estratégias de trabalho: planejamento, critérios justos de seleção e de avaliação dos atletas, definição real de objetivos e escolha dos métodos de treinamento e dos exercícios que farão parte desta atividade, entre outros
  • intervenção eficaz no processo (atitudes positivas com o oferecimento de condições adequadas de aprendizagem e estímulo à resolução de problemas e tomadas de decisão)

Em suma, independentemente do nível de atleta com o qual o treinador esteja trabalhando, mas especialmente nas categorias de base, ele deve visar a valorização do ser humano, incentivar a prática esportiva livre e para o desenvolvimento de um espírito crítico e cidadão. A partir dessa concepção o esporte será encarado com uma forma saudável de atividade, onde o prazer e a alegria da prática serão predominantes.

Seguem as referências bibliográficas que serviram de base para a elaboração dos dois textos apresentados:

Bento, J.O. (2006) Da pedagogia do desporto. In: Tani, G.; Bento, J.O & Petersen, R.D.S.(orgs), Pedagogia do Desporto. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, p. 26-40.

De Rose Jr., D. (2006) Modalidades esportivas coletivas: o basquetebol. In: De Rose Jr., D. (org), Modalidades esportivas coletivas. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, p.113-127.

De Rose Jr., D. & Korsakas, P. (2006) O processo de competição e o ensino do desporto. In: Tani, G.; Bento, J.O & Petersen, R.D.S. (orgs), Pedagogia do Desporto. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, p. 251-261.

Korsakas, P. O esporte infanto-juvenil: as possibilidades de uma prática educativa. In: De Rose Jr., D.  (org), Esporte e atividade física na infância e adolescência: uma abordagem multidisciplinar. Porto Alegre: Artmed, 2002.

Korsakas, P. & Marques, J.A.A. (2005) A preparação psicológica como componente do treinamento esportivo no basquetebol. In: De Rose Jr., D. & Tricoli, W. (orgs), Basquetebol: uma visão integrada entre ciência e prática. Barueri: Manole, p.173-202.

Marques, A. (2006) Desporto: ensino e treino. In: Tani, G.; Bento, J.O & Petersen, R.D.S. (orgs), Pedagogia do Desporto. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, p. 142-153.

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