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Lesões no basquetebol


Dando continuidade à serie Mini Artigos, apresento um trabalho realizado pelos fisioterapeutas Felipe Tadiello e Gabriel De Rose, sobre lesões no basquetebol brasileiro.

Este trabalho foi publicado na íntegra na Revista Digital Lecturas en Educación Física – http://www.efdeportes.com – ano 10, no. 94, 2006.

As lesões podem ser consideradas como o principal fator de afastamento de atletas de sua modalidade esportiva. Esse afastamento é prejudicial, pois influencia diretamente no seu desempenho físico e técnico, além dos possíveis prejuízos psicológicos, já que a recuperação pode ser demorada, exigindo dele muita paciência e cautela para voltar à atividade, conseqüentemente a equipe também é prejudicada. As lesões, muitas vezes, acabam acontecendo em momentos importantes de suas carreiras, afastando-os de competições, tirando-os de seleções e, em alguns casos, provocando o abandono precoce da carreira.

O basquetebol é um esporte que exige contato entre os jogadores tanto na defesa quanto no ataque. É jogado por dez atletas que ocupam simultaneamente um espaço de 420m². No entanto, a maioria das ações acontece em meia quadra (210m²) o que dá ao jogo uma dinâmica especial e aumenta a probabilidade desse contato. Nesse esporte, a maior carga de trabalho ocorre nos membros inferiores provocando um grande número de lesões em função dos deslocamentos, mudanças bruscas de direção e saltos.

Analisando resultados de vários estudos, constata-se que, no basquetebol, os membros inferiores são os mais acometidos por lesões, com destaque para entorses de tornozelo. As mudanças bruscas de direção, saltos e contato direto com outros atletas parecem ser as causas mais comuns para que elas ocorram. No caso do joelho, as entorses e as tendinites patelares foram as lesões mais freqüentes, assim como as luxações nos dedos das mãos.

O estudo a seguir foi desenvolvido com 344 atletas de basquetebol brasileiros (174 homens e 170 mulheres) com idade variando entre 14 e 35 anos, participantes de equipes representativas de clubes e seleções regionais e nacionais. Para a coleta dos dados foi utilizado o questionário Perfil do Campeão, desenvolvido pela Rede CENESP, do Ministério do Esporte, cujo objetivo foi traçar um perfil do atleta brasileiro. Esse questionário contém uma sessão especifica para relato de lesões esportivas.

Dos 344 atletas que participaram do estudo, 269 (78,2%) relataram algum tipo de lesão ao longo de sua carreira, não havendo diferenças percentuais entre homens e mulheres.

Sessenta e um atletas relataram mais de uma lesão ao longo de sua carreira, sendo 32 do masculino e 29 do feminino. Houve atletas que tiveram até 4 lesões. Ao todo foram constatadas 341 lesões sendo 172 do masculino e 169 do feminino.

As lesões foram identificadas por segmento corporal, sendo: 274 nos membros inferiores (80,3%), 44 nos membro superiores (12,9%), 22 no tronco (6,5%) e 1 na cabeça (0,3%)

Nos membros inferiores as lesões de tornozelo foram predominantes (150, sendo 100 casos de entorses, 7 casos de tendinite, 6 casos de ruptura ligamentar e 11 fraturas, entre as principais), seguidas por lesões no joelho (90, sendo 28 casos de tendinite patelar, 13 entorses, 6 lesões de menisco e 16 casos de ruptura do ligamento cruzado, entre outras). Destaque-se ainda 13 ocorrências de estiramento muscular localizados na coxa.

Nos membros superiores, os ombros (20 ocorrências) e as mãos (19 ocorrências) foram os setores mais afetados com casos de tendinite, luxação e fraturas nos dedos.

O tronco e a cabeça foram os segmentos que apresentaram menor incidência de lesões em relação aos membros. No masculino foram identificadas 8 lesões de coluna e 9 nas costas, e no feminino foram identificadas 2 na coluna e 3 nas costas. A única lesão na cabeça (fratura no nariz) foi citada por um atleta.

Uma das principais funções do treinador é organizar seu trabalho, respeitando as características de seus atletas, principalmente quando tratamos com crianças, para que possamos diminuir o risco de lesões, principalmente nos treinamentos.

O número de lesões pode ser diminuído com um trabalho que passa desde a orientação para o atleta fora da quadra mostrando a ele a importância da utilização de equipamentos adequados, da realização de aquecimento (tanto em treinos quanto em jogos) e também utilizar técnicas de propriocepção dentro da dinâmica do jogo.  O trabalho proprioceptivo visa a recuperação de equilíbrio e estabilidade e o uso dos gestos esportivos é de suma importância na prevenção das lesões podendo ser aplicado desde a iniciação.

Um outro fator importante para se diminuir o risco de lesões é contar com o apoio de profissionais especializados (preparador físico e fisioterapeuta) que, juntamente com o técnico, poderão discutir e elaborar as melhores estratégias de treinamento.

A lesão para um atleta não representa somente uma limitação física, mas pode trazer problemas de ordem psicológica bastante significativos, pois o atleta é retirado de seu ambiente de trabalho e da convivência com seus pares. Muitas vezes o acompanhamento psicológico, em casos de lesões mais severas, deve ser recomendado.

Esta cena pode ser evitada

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Lembrando nossos técnicos

Amigos do basquetebol

É sempre bom lembrar daqueles que dirigiram nossas seleções em Campeonato Mundiais e Jogos Olímpicos. Normalmente só falamos dos atletas.

Agora chegou a vez dos técnicos:

Jogos Olímpicos – masculino

1936 – Arno Frank;  1948 – Moacyr Daiuto (bronze – primeira medalha olímpica de uma modalidade coletiva para o Brasil);  1952 – Manoel Pitanga

1956 – Mário Amâncio; 1960 – Togo Renan Soares (Kanela; bronze); 1964 – Renato Brito Cunha (bronze); 1968 – Renato Brito Cunha

1972 -Kanela; 1980 – Cláudio Mortari; 1984 – Renato Brito Cunha; 1988 – Ary Vidal; 1992 – José Medalha e 1996 – Ary Vidal

Jogos Olímpicos  – Feminino

1992 – Maria Helena Cardoso; 1996 – Miguel Ângelo da Luz (prata); 2000 – Antonio Carlos Barbosa (bronze)

2004 – Antonio Carlos Barbosa ; 2008 – Paulo Bassul

Campeonatos Mundiais – Masculino

1950 – Moacyr Daiuto; 1954 – Kanela (vice); 1959 – Kanela (campeão); 1963 – Kanela (campeão); 1967 – Kanela (tereceiro); 1970 – Kanela (vice)

1974 – Edson Bispo dos Santos; 1978 – Ary Vidal (terceiro); 1982 – José Edvar Simões; 1986 – Ary Vidal; 1990 – Hélio Rubens; 1994 – Ênio Vecchi

1998 – Hélio Rubens; 2002 – Hélio Rubens; 2006 – Lula Ferreira; 2010 – Ruben Magnano.

Campeonatos Mundiais – Feminino

1953 – Mário Amâncio; 1957 – Antenor Horta; 1957 – Almir de Almeida; 1964 – Almir de Almeida; 1967 – Ary Vidal; 1971 – Waldyr Pagan Perez (terceiro); 1975 – Waldyr Pagan Perez;

1979 – Antonio Carlos Barbosa; 1983 – Antonio Carlos Barbosa; 1986 – Maria Helena Cardoso; 1990 – Maria Helena Cardoso; 1994 – Miguel Ângelo da Luz (campeão);

1998 – Antonio Carlos Barbosa; 2002 – Antonio Carlos Barbosa; 2006 – Antonio Carlos Barbosa e 2010 – Carlos Colinas

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Helen: muito obrigado!

Mais uma grande atleta despede-se do basquetebol.

Após o jogo de ontem (21/02, no qual Americana perdeu a série semifinal para Ourinhos), a armadora Helen anunciou o final de sua carreira. E foi emocionante ver, ao final do jogo, essa querida atleta chorando no banco de reservas. Talvez muito menos pela derrota, mas pelo fato de deixar as quadra onde ela sempre honrou as cores das equipes que representou e, principalmente, a nossa seleção.

No último Mundial (Rep. Tcheca – 2010) vimos o esforço e a entrega dessa “veterana” que deveria ser tomada como exemplo pelas mais jovens.

Helen participou de cinco Mundiais (1994, 1998, 2002,  2006 e 2010), sendo campeã em 1994. Nos Jogos Olímpicos Helen esteve presente em 1992 (primeira participação brasileira), 2000 (conquistando o bronze) e 2004. Em 1996 uma grave lesão a tirou dos Jogos de Atlanta. Além disto, foi inúmeras vezes campeã paulista, brasileira e sulamericana.

Mas o mais importante talvez não sejam seus títulos e suas participações em campeonatos Mundiais e Jogos Olímpicos.

O que ficará para os que realmente gostam do esporte é a imagem de uma jogadora guerreira , ciente de sua importância para suas equipes, com atitudes dignas de uma grande atleta e pessoa.

Helen deixará saudades nas quadra mas, com certeza, poderá contribuir muito para o nosso basquetebol.

Helen, parabéns pela sua carreira e muito obrigado por ter-nos feito gostar um pouquinho mais do basquetebol.

Seja muito feliz!!!

Helen em ação pela Seleção Brasileira

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Postura e conduta técnica do treinador de basquetebol: organização para o dia do jogo

Amigos do basquetebol

Esta é terceira e última parte do trabalho preparado pelo Prof. Tácito Pinto Filho e que trata de aspectos relacionados a organização para o dia do jogo, dentro do tema: “Postura e conduta técnica do treinador de basquetebol

-Organização para o dia de jogo

            O jogo é como uma peça de teatro, você realiza os ensaios (treinamentos) para posteriormente fazer a apresentação.

O treinador deve possuir um “check list” de tudo que será necessário para o jogo (documentação, verba para arbitragem, transporte, uniformes, água, estojo de primeiros socorros, bolas, etc.) e realizar uma conferência com antecedência para deixar para a última hora e se esquecer de alguma coisa.

Ter um plano de jogo preparado, com as opções posições, para não se ver em dificuldades e se preparar mentalmente para as possibilidades que poderá encontrar. De preferência que tenha isto por escrito pois não podemos depender de nossa memória ou de uma providência divina. Para assegurar uma grande eficiência tem que utilizar-se de um plano que tenha ajustes que possam ser feitos em qualquer situação.

Chegar com antecedência ao local de jogo, com tempo suficiente para solucionar qualquer imprevisto.

– No vestiário antes do jogo

            Dar avisos importantes como exemplo horário do próximo treino, procedimentos após o jogo, etc.

             Se possível levar as estatísticas de jogo ou informações sobre a equipe adversária, para verificar seus pontos fortes e fracos.

Indicar quais serão os 5 prováveis jogadores que iniciarão o jogo pela equipe contrária da mesma forma os 5 de nossa equipe ou  em caso de não ter idéia quais são os principais jogadores que deverão ter uma atenção especial por nossa parte.

Decidir quais os sistemas ofensivos e defensivos que deverão ser utilizados  no início da partida. Fazer possíveis ajustes.

– Durante o jogo

            Procurar manter o seu foco no jogo ficando alheio a possíveis interferências.

Dar instruções claras e objetivas, procurar não dirigir sua equipe como se fosse um jogo de vídeo game narrando todas as ações que serão realizadas. Treinador que fala muito durante o jogo é porque não falou o suficiente nos treinamentos.

Não enfatize demais um erro cometido,  o que seu atleta espera de você é que mostre o caminho para não errar novamente. Que ele errou  ele já sabe.

Se dirigir para a equipe de arbitragem, oficiais de quadra e mesa, de forma adequada e somente quando se fizer necessário.

– Nos pedidos de tempo

Se possuir uma comissão técnica conversar antes com os elementos dela antes de se dirigir aos jogadores.

Falar de um aspecto do jogo de cada vez, por exemplo: primeiro abordar a defesa e depois o ataque.

Colocar os jogadores sentados no banco para propiciar um descanso e maior atenção as orientações que serão passadas. Os jogadores que não estão em quadra deverão providenciar água, toalhas, etc.

Se o pedido de tempo foi solicitado pelo adversário promova alguma mudança para confundi-lo e atrapalha-lo.

– No intervalo do jogo

            Observar a súmula oficial e conferir a estatística de jogo, se houver.

Decidir com a comissão técnica ou sozinho quais jogadores deverão iniciar o 2º tempo, bem como quais estratégias serão utilizadas.

Informar seus jogadores à respeito do número de faltas de sua equipe e do adversário.

Voltar para a quadra a tempo de realizar um “reaquecimento” .

– Após o jogo

            “NÃO” realizar palestras ou reuniões, pois se você venceu , estará empolgado e poderá “falar demais” e se perdeu estará aborrecido e também poderá “falar demais”. Vá para casa, analise e reflita sobre o jogo e deixe para conversar com os jogadores no próximo treino.

 Considerações finais

O técnico não demasiado experiente irá querer por em prática tudo que tem recebido e seguramente pensará que a última informação é a melhor, unindo-a muitas vezes às suas técnicas, táticas e treinamentos sem analisar se é válido ou não para sua equipe. Tem que levar em consideração que as funções e problemas de cada equipe são únicos e diferentes.

            Muitos treinadores atribuem o sucesso de outros à sorte. Mas a sorte nada mais é do que:

Soluções (oferecer mais soluções que dificuldades)

Organização (planejar e organizar seus sonhos e metas)

Regularidade (disciplina e persistência)

Trabalho (o único lugar que o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário)

Esforço extra (fazer além do necessário)

Da postura e conduta dos futuros treinadores depende a futura geração de atletas e homens.

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ENTB: fim do primeiro ciclo de cursos

Amigos do basquetebol

Com o curso de S.Paulo terminamos o primeiro ciclo de cursos nível 1. O resultado pode ser considerado como o mais positivo possível.

Em S.Paulo tivemos 211 participantes, com representantes de 10 estados: S.Paulo, Minas Gerais, Mato Groso, Distrito Federal, Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Norte, Paraíba, Espírito Santo e Rondônia.

Com a participação dos professores Lula Ferreira, Hermes Balbino, Tácito Pinto Filho, Paulo Bassul e Ricardo Bojanich (membro da Escola Argentina de Treinadores), o curso atendeu às expectativas tanto em sua parte organizacional quanto aos conteúdos desenvolvidos.

Além desses profissionais, o técnico da seleção nacional, Ruben Magnano também pode levar aos presentes suas palavras de incentivo e reafirmação da importância da formação de treinadores nas categorias de base.

Creio que estamos no caminho certo. Com os ajustes necessários, aproveitando as excelentes opiniões dos participantes deste e dos dois cursos anteriores (Recife e Rio de Janeiro) vamos melhorar a cada dia. É o momento de avaliarmos tudo o que foi feito até o momento.

Como sempre ressalto, ainda há muito o que fazer. E o sucesso da ENTB depende da participação dos treinadores e de todos aqueles que realmente querem que o nosso basquetebol evolua. E é esta nossa vontade.

O trabalho é árduo. Temos que tirar muitas pedras do caminho. E algumas delas, infelizmente, jogadas por pessoas do próprio basquetebol. E não me refiro àqueles que nos apontam falhas e criticam nossa atuação. Refiro-me àqueles que são críticos contumazes, mas não apontam soluções e não se interessam em colaborar.

Aos que criticam e apontam soluções só tenho a agradecer, pois os vejo como pessoas que estão envolvidas no processo e também querem melhorar. Quanto aos demais, só posso lamentar e dizer que meu tempo é precioso demais para continuar lhes dando tanta atenção.

Enfim, após três cursos, cerca de 320 treinadores atendidos, quase todos os estados da federação presentes, quero reafirmar minha convicção no trabalho que estamos realizando.

Como disseram o Diego e o Ruben durante o curso, a ENTB é dos treinadores. Portanto, juntos vamos trabalhar para torná-la nossa bandeira em prol do basquetebol.

Paulo Bassul orientando os atletas na organização de ataque – um dos temas do curso em S.Paulo

 

 

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A memória do nosso basquetebol

Amigos

Há alguns anos resolvi escrever crônicas sobre minha vida de torcedor Corinthiano. Uma diversão nos fins de tarde em meu gabinete de diretor da EACH-USP. Mas entre tantas crônicas futebolísticas, em maio de 2009, escrevi uma sobre o basquetebol, mais especificamente sobre a grande equipe de basquetebol do Corinthians na década de 60, que eu acompanhei e que me despertou o gosto por esse esporte maravilhoso.

Como nossa memória é curta e sempre nos lembramos de algo quando algo ruim acontece, com o falecimento do grande Edson Bispo, resolvi reeditar esta crônica que conta um pouco dessa minha paixão e de ídolos que embalaram minha adolescência.

Para os mais velhos que seja um reecontro com o melhor do nosso basquetebol e para os mais jovens, que sirva de incentivo. Que eles conheçam um pouco mais daqueles que fizeram do nosso basquetebol uma potência, que se perdeu ao longo do tempo.

Como homenagem ao Edson Bispo, aí vai ela:

Basquetebol: a outra paixão

 Quando comecei a “brincar” de escrever crônicas, a intenção era clara: abordar o futebol e o Corinthians. Claro que na adjacência viriam citações de fatos relacionados aos outros clubes também. No entanto, não poderia deixar de, em algum momento, adentrar a quadra (literalmente) e falar do basquetebol, esporte que me acompanha desde minha infância.  Tudo começou em São Caetano, por intermédio do Silvio (amigo e irmão). Fomos ao treino do São Caetano Esporte Clube, na quadra de cimento da Rua Perrela. O técnico era o Seu Zé. Velho entusiasta do basquetebol e que tratava a molecada como filhos. E ele não perdia nenhuma aposta nas brincadeiras de arremessos do meio da quadra. Sua “lavadeira” (quem conhece basquete sabe do que estou falando) era irritantemente infalível.

Tabela de madeira, aro torto sem redinha, bola de couro com gomos e uma chuva descomunal. A quadra era descoberta, então só nos restou ficar brincando de passar e arremessar num espaço coberto muito apertado. Mas isso não diminuiu a vontade de praticar aquele esporte. Vieram os torneios internos do clube e a chance de jogar o primeiro jogo amistoso contra o São Paulo, no Morumbi. Inesquecível. Um bando de moleques que mal conheciam os limites de São Caetano, agora iam rumo ao longínquo Morumbi. Acho que não tinha a Avenida dos Bandeirantes. Era 1965.  O  jogo foi emocionante. Eu usando um uniforme oficial (coincidentemente preto e branco – camisa 5). Resultado? Perdemos. Mas isso era irrelevante. De recordação algumas fotos. Preto e branco é claro. Grande coincidência. No mesmo dia, à tarde o Morumbi (ainda com muitas obras) receberia um Corinthians e Santos. Na época do tabu, mais uma vitória do Santos – 4 a 2. Mas isso não importava para aquele grupo de moleques.

Estava lançada a semente. Como jogador, fui razoável. Tornei-me técnico, até com certo destaque. Mas em toda minha juventude acompanhei o basquetebol e, principalmente, nosso Timão que, na década de 60, fez história com um time espetacular. Acho até que, além do tio Adilson, o basquetebol do Corinthians teve uma grande parcela de culpa pelo fato de ter me tornado um Corinthiano fanático. Como esquecer aquela equipe? Wlamir (o maior de todos os tempos e naquele em quem busquei inspiração para jogar, inclusive no número da camisa), Amaury (a classe em forma de jogador de basquetebol), Ubiratan (guerreiro e o primeiro que eu vi dando uma enterrada), Rosa Branca (o “jump” mais perfeito de todos) e Mical (garra e eficiência).

Como esquecer os jogos internacionais com Real Madrid, Seleções da Rússia e Iugoslávia e equipes universitárias norte-americanas? Parque São Jorge e Ibirapuera lotados. Naquele tempo o basquetebol (bi-campeão mundial) era o segundo esporte dos brasileiros. Hoje, em compensação… E como esquecer nossos eternos rivais do Sírio, Palmeiras e Franca? Jogos fantásticos. Jogadores fantásticos: Victor, Succar, Menon, Mosquito, Jathir, Edson Bispo, Edvar, Hélio Rubens, Fransérgio e os irmãos Olaio. Até São Caetano tinha uma equipe importante nessa época: Cidão, Paulinho, Vicente, Laerte, Eduardo, Gato, Cubano, Genaldo e até um medalhista olímpico, Sérgio Macarrão.

Que época. Que jogos. Que basquetebol. O Brasil era potência. Rivalizava com Estados Unidos, União Soviética e Iugoslávia. Mas tudo que é muito bom um dia acaba. O Corinthians acabou. O Sírio acabou. O Palmeiras acabou e hoje tenta sobreviver. O São Caetano não acabou, mas não mantém a mesma tradição. Somente Franca continua se mantendo como um centro exclusivamente de basquetebol, seguida por outros times, mas sem o mesmo “glamour”.

Podem me chamar de saudosista. Mas a verdade é que hoje o basquetebol não atrai mais os jovens, como eu fui atraído. Não temos mais os Sílvios que levam seus amigos para treinar. As quadras melhoraram, as tabelas são de material especial, os aros são retráteis e todos com redinha, as bolas são ótimas. Mas falta algo. Faltam jogadores espetaculares, assim como aqueles que entusiasmaram muitas gerações. Falta lotar o Parque São Jorge, o Ibirapuera, o Parque Antártica e o Ginásio do Sírio. Faltam jogos contra equipes de renome internacional. Enfim, faltam coração e comprometimento das pessoas que “cuidam” do nosso basquetebol.

Quem sabe algum dia, algum jovem vai voltar a sair de São Caetano, de ônibus, para vibrar com novos Wlamires, Amauris, Biras, Rosas Brancas e Micais. Quem sabe…  

 

Edson Bispo (de camiseta branca) e a seleção Campeã Mundial de 1959

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Desculpas

O texto abaixo foi produzido pelo Prof. Ronaldo Pacheco da Universidade Católica de Brasília. Ele foi escrito depois dos Jogos Olímpicos de Beijing. Sua publicação foi autorizada pelo autor.

Vendo os atletas brasileiros pedindo desculpas pela não obtenção de medalhas e refletindo sobre o que se faz pelo esporte no Brasil, resolvi escrever este texto que, na minha opinião, reflete sobre quem deve desculpas a quem.

 DESCULPAS AOS NOSSOS ATLETAS:

 Desculpem pela falta de espaços esportivos nas escolas;

Pela falta de professores de educação física nas séries iniciais;

Pelas escolinhas mercantilizadas que buscam quantidade de clientes e não qualidade de aprendizagem;

Desculpem pela falta de incentivo na base;

Desculpem pela falta de praças esportivas;

Desculpem pelo discurso de que “o esporte serve para tirar a criança da rua” (é muito pouco se for só isso!);

Desculpem pela violência nas ruas que impede jovens de brincar livremente, tirando deles a oportunidade de vivenciar experiências motoras;

Desculpem se muito cedo lhe tiraram o “esporte-brincadeira” e lhe impuseram o “esporte-profissão”;

Desculpem pelo investimento apenas na fase adulta quando já conseguiram provar que valia a pena;

Desculpem pelas centenas de talentos desperdiçados por não terem condições mínimas de pagar um transporte para ir ao treino, de se alimentar adequadamente, ou de pagar um “exame de faixa”;

Desculpem por não permitirmos que estudem para poder se dedicar integralmente aos treinos.

Desculpem pelo sacrifício imposto aos seus pais que dedicaram seus poucos recursos para investir em algo que deveria ser oferecido gratuitamente;

Desculpem levá-los a acreditar que o esporte é uma das poucas maneiras de ascensão social para a classe menos favorecida no nosso país;

Desculpem pela incompetência dos nossos dirigentes esportivos;

Desculpem pelos dirigentes que se eternizam no poder sem apresentar novas propostas; Desculpem pelos dirigentes que desviam verbas em benefício próprio;

Desculpem pela falta de uma política nacional voltada para o esporte;

Desculpem por só nos preocuparmos com leis voltadas para o futebol (Lei Zico, Lei Pelé, etc.);

Desculpem se a única lei que conhecem ligada ao esporte é a “Lei do Gérson” (coitado do Gérson);

Desculpem pelos secretários de esporte de “ocasião”, cujas escolhas visam atender apenas promessas de ocupação de espaços político-partidários (e com pouca verba no orçamento);

Desculpem pelos políticos que os recebem antes ou após grandes feitos (apenas os vencedores) apenas para usá-los como instrumento de marketing político;

Desculpem por pensar em organizar “Olimpíadas” se ainda não conseguimos organizar nossos ministérios, nossas secretarias, nossas federações, nossa legislação esportiva;

Desculpem por forçá-los, contra a vontade, a se “exilarem” no exterior caso pretendam se aprimorar no esporte;

Desculpem pela cobrança indevida de parte da imprensa que pouco conhece e opina pelo senso comum;

 Desculpem o povo brasileiro carente de ídolos e líderes por depositar em vocês toda a sua esperança;

Desculpem pela nossa paixão pelo esporte que, como toda paixão, nem sempre é baseada na razão;

Desculpem por levá-los do céu ao inferno em cada competição, pela expectativa criada;

Desculpem pelo rápido esquecimento quando partimos em busca de novos ídolos;

Desculpem pelas lágrimas na derrota, ou na vitória, pois é a forma que temos para extravasar o inexplicável orgulho de ser brasileiro e de, apesar de tudo, acreditar que um dia ainda estaremos entre os grandes.