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O esporte como objeto de estudo: área a ser explorada

Amigos do Basquetebol

Segue parte do texto de minha autoria publicado na Revista Corpoconsicência, v.2, p.15-17, 2007.

Os conteúdos do esporte sempre foram inseridos nos currículos dos cursos de Educação Física, através de disciplinas que focavam as modalidades esportivas para fornecer ao professor de Educação Física material para ministrar suas aulas, servindo como meio para a aprendizagem de habilidades específicas. Outro objetivo era a formação dos técnicos para atuar em modalidades esportivas, quase sempre de caráter exclusivo para a preparação de equipes voltadas à competição.

O enfoque dessas disciplinas era (e talvez ainda seja) voltado à prática ou à execução dos movimentos característicos de qualquer modalidade esportiva, dando-se pouca importância à análise mais aprofundada do seu significado, aplicabilidade e inserção no contexto da atividade. Prova disto era a exigência de exames específicos nos vestibulares de muitos desses cursos e as provas das disciplinas que sempre privilegiavam a execução prática.

Em determinado momento, o esporte passou a ser entendido como um fenômeno em ascensão na cultura e sociedade contemporânea, com um apelo midiático muito grande. Esse fato gerou um maior interesse pelas atividades esportivas e suas relações com disciplinas que, até então, serviam como base dos estudos da tradicional Educação Física, como por exemplo, a fisiologia, psicologia, sociologia e biomecânica entre outras. Com esse enfoque, o esporte passou a se constituir numa sólida possibilidade de desenvolvimento de estudos que trariam benefícios aos usuários e interessados nessa atividade, ou seja, atletas, técnicos, preparadores físicos, médicos esportivos, fisioterapeutas, psicólogos, nutricionistas, entre outros.

De conteúdos complementares dos currículos dos cursos de Educação Física, o esporte passou a ser tema de curso superior (com destaque para o curso de Bacharelado em Esporte da Escola de Educação Física e Esporte da USP, criado em 1992) e programas de pós-graduação contendo áreas de estudos específicos, como no curso de Pós Graduação da EEFEUSP, que, em 2005 criou a área de concentração “Estudos do Esporte”, necessidade mais do que justificada, pela quantidade de trabalhos de mestrado e doutorado desenvolvidos tendo o esporte como seu objeto de estudo.

No entanto, ainda perduram dúvidas quanto aos conteúdos dos cursos que têm o esporte como sua principal meta de conhecimento e a forma como são ministrados. O que se deve privilegiar: os conteúdos que contemplem a prática e a execução dos movimentos específicos e suas aplicações nas diferentes atividades para as quais eles se prestam? Ou conteúdos que levem os alunos e profissionais a reflexão do que seja verdadeiramente o esporte entendido como um fenômeno abrangente e que pode ser analisado sob a ótica do indivíduo “total”, que se movimenta, pensa e interage com grupos sociais cooperativos e opostos?

No primeiro caso, corre-se o risco de voltarmos aos antigos cursos de Educação Física onde se buscava, fundamentalmente, a prática pela prática (ex: a “bandeja” no basquetebol era vista como um simples fundamento de jogo, com uma seqüência de execução e na qual o aluno era treinado a realizá-la, sem se preocupar com todas as possíveis implicações desse movimento e todo o conhecimento nele contido).

No segundo caso, a mesma “bandeja” é analisada como um movimento complexo em um contexto de imprevisibilidade ambiental no jogo e que exige uma série de requisitos físicos, técnicos e cognitivos para ser executada da forma mais eficiente possível. No entanto há também o risco de “teorizarmos” demasiadamente o assunto e esquecermos que ele é um instrumento para ser aplicado em determinadas situações.

Considerando os riscos e eliminando qualquer radicalismo, com a experiência de ter passado pelas diferentes fases de evolução dos cursos de Educação Física e, posteriormente, ter atuado especificamente no curso de Bacharelado em Esporte da Escola de Educação Física e Esporte da USP, além de uma razoável experiência prática como técnico esportivo, não teria dúvida em optar pela segunda forma de abordagem. Abordagem esta que nos leva a pensar o movimento e, fundamentalmente, pensar no indivíduo que realiza este movimento e todas as relações que ele possa estabelecer com seu próprio corpo e com os elementos que fazem parte do contexto no qual ele está participando.

Desta forma, o esporte apresenta uma grande possibilidade de se tornar um rico objeto de estudos não se limitando a ser encarado como uma atividade competitiva e “prejudicial” (segundo os radicais que abominam a prática esportiva, não entendendo o seu valor educativo em qualquer faixa etária ou nível de desenvolvimento do praticante) ou um conjunto de movimentos desconectados do rico contexto ao qual está submetido. Este fato lhe dá a possibilidade de ser encarado como uma atividade com base científica suficientemente desenvolvida para promover estudos metodologicamente bem delineados e com aplicações muito bem definidas.

O Esporte deve ser entendido como uma “área de estudo” em desenvolvimento e que pode atender às expectativas de diferentes públicos, respeitadas as características, necessidades e objetivos desses públicos. A riqueza desta “área de estudos” no que concerne à investigação científica é ilimitada pelas possibilidades de relacionamento do esporte com outras áreas e disciplinas, como já citado anteriormente.

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