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Aspectos relevantes do envolvimento de jovens com as práticas corporais: o jovem e o esporte

O texto abaixo foi apresentado na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, durante seminário sobre atividade física e esporte para adolescentes, em abril de 2011.

O esporte vem ocupando um espaço cada vez maior na vida das pessoas, especialmente das crianças e jovens. A influência dos eventos esportivos divulgados com grande freqüência pelos meios de comunicação, a identificação com ídolos, a pressão dos pais e amigos e a esperança de obter sucesso e status fazem com que um número crescente de crianças iniciem sua prática cada vez mais jovens.

Treinar, competir, vencer, prêmios, são palavras comuns no cotidiano desses jovens que praticam esporte ou que o vislumbram como uma grande possibilidade de sucesso.

O esporte foi criado pelos gregos agregando princípios, valores e finalidades com o objetivo de homenagear seus deuses e humanizar as pessoas. Na antiga Grécia, praticar esporte tinha diferentes conotações: em Esparta a intenção era a de preparar guerreiros para defender a pátria e o território. Em Atenas, fazia parte da formação do cidadão e era incluído no conjunto de atividades pedagógicas que faziam parte da formação do jovem ateniense.

Com o passar do tempo o esporte foi perdendo sua finalidade e teve seu período de decadência com a ascensão do Império Romano e com o advento da Era Medieval onde toda e qualquer manifestação relacionada à cultura, educação e culto ao físico era repudiada pela Igreja e seus seguidores.

A partir do Renascimento, mas ainda de forma tímida, o esporte começou a ressurgir, principalmente na Europa com a criação de atividades voltadas para a formação complementar dos jovens nas escolas britânicas. Thomas Arnold, pedagogo inglês, teve vital importância nesse processo ao fazer constar do currículo de sua escola, atividades individuais e coletivas visando a participação dos jovens fora do ambiente de sala de aula.

Nesse ambiente foram desenvolvidas atividades como as corridas, remo e os jogos como o críquete, rúgbi e o futebol. A partir de então o esporte passou a ter lugar de destaque na sociedade, ainda voltado para uma elite privilegiada, mas apontando para uma popularização que viria a ser incrementada pelo ressurgimento dos Jogos Olímpicos ao final do século XIX.

No século XX o esporte passou a ter grande participação na vida das pessoas e, com as conquistas tecnológicas e os eventos cada vez mais frequentes, essa atividade viu aumentado o número de espectadores e praticantes. A partir da década de 70 com o advento das transmissões esportivas via satélite, o esporte pôde ser visto por um número cada vez maior de pessoas, número este que aumentou de forma incalculável com o desenvolvimento de outras mídias, especialmente a internet.

Esse acesso irrestrito fez com que muitos atletas, de diferentes modalidades esportivas, passassem a ser mais conhecidos, tornando-se ídolos e modelos da juventude, quer por sua qualidade esportiva, por sua beleza ou por seu status representado por contratos milionários e possiblidade de ascensão social nunca antes imaginada através de outra atividade profissional.

A questão estética (beleza corporal) promoveu a partir dos anos 90 uma corrida desenfreada dos jovens às academias em busca do corpo perfeito. Nesses anos, o Brasil viveu uma era de aumento do número de academias. Isto provocou uma mudança importante no conceito dos cursos de Educação Física que passaram a dar ênfase na formação de profissionais para atuar nesse setor do mercado. Ao mesmo tempo, essa situação provocou uma inflação de formados na área o que provocou, uma inevitável queda na qualidade dessa formação e desses profissionais fazendo com que algumas academias não oferecessem um serviço adequado, causando prejuízos à saúde de seus frequentadores, muitos deles adolescentes. Isto fez com que os Conselhos Regionais de Educação Física atuassem de forma rigorosa no controle da atuação profissional.

No âmbito esportivo competitivo, verificou-se um aumento na prática de algumas modalidades, muito em decorrência dos aspectos financeiros e sociais que essa prática poderia trazer de benefícios aos jovens e também por resultados internacionais e conquistas de medalhas olímpicas. O que presenciamos foi um destaque cada vez maior a jovens que sequer tinham sua formação física e psicológica consolidadas já guindados ao posto de ídolos cobiçados por clubes e instituições renomadas, dispostas a investir pesadas somas para ter esses futuros talentos. No Brasil, o futebol pode ser citado como o maior exemplo dessa realidade, com jovens sendo disputados por empresários interessados em colocá-los principalmente no mercado europeu e tudo isto com a conivência dos pais que vislumbram essa situação como a grande possiblidade de resolver todas as questões financeiras da família.

Independentemente dessas questões estéticas, sociais e financeiras, parece haver por parte dos adultos um entendimento que a prática esportiva de crianças e adolescentes é importante e faz parte da formação do jovem, agregando-se à sua formação intelectual. Essa prática pode favorecer o desenvolvimento da personalidade e da capacidade geral do indivíduo, aquisição de valores com o fair play, respeito, tolerância e atitudes de integração e convivência, formação de um estilo de vida que afaste comportamentos inadequados como o consumo de drogas e violência.

Além disto, a prática esportiva pode contribuir para a vivência de experiências variadas e desafiadoras envolvendo questões intrínsecas, como o conhecimento do próprio corpo em diferentes situações, conhecimento dos limites psicológicos e cognitivos, envolvimento com diferentes situações e materiais e as experiências sociais advindas do contato com companheiros de equipe, adversários, competição e treinamentos.

Todas essas nuanças atribuídas à prática esportiva devem ser entendidas em um contexto que proporcione uma grande variedade de oportunidades relacionadas a atividades motoras vigorosas e diárias com o objetivo de desenvolver suas capacidades singulares de movimento, contribuindo para a formação de um cidadão apto a participar de programas esportivos em geral, e consumidor crítico dos espetáculos esportivos e informações veiculadas pelos meios de comunicação.

Isto pressupõe que os programas de atividades físicas e esportivas sejam adequados às necessidades das crianças e adolescentes, identificando suas características de desenvolvimento nos vários domínios do comportamento para que se possa evitar problemas em relação a esse desenvolvimento. Se isto não for observado, o esporte também poderá se tornar um gerador potencial de stress, principalmente se o jovem não estiver pronto para enfrentar situações complicadas inerentes a essa prática, principalmente a competição que exige por muitas vezes demandas que vão além da capacidade de resposta desses jovens.

Mesmo no aspecto de rendimento, no qual há uma nítida tendência elitista e de exclusão, o esporte pode se tornar numa ampla possibilidade de formação e educação em função das oportunidades que pode gerar ao praticante.

O que se deve entender, e nesse aspecto o professor de educação física/técnico esportivo e a família são fundamentais é que praticar esporte é direito de todos e isto deve ser incentivado. Mas chegar ao alto rendimento é prerrogativa de poucos.

Creio que nossa função é proporcionar à criança e ao jovem a oportunidade de vivenciar esta prática.  Como conseqüência teremos crianças e jovens ativos, saudáveis e felizes e, quem sabe, até algum grande atleta.

Leituras recomendadas:

 Bento, J.O. (2004) Desporto para crianças e jovens: das causas e dos fins. In: Gaya, A.; Marques, A. & Tani, G. Desporto para crianças e jovens: razões e finalidades. Porto Alegre, UFRGS Editora, cap.1.

De Rose Jr. D. (2009) Esporte, competição e estresse: implicações na infância e adolescência. In: De Rose Jr., D. Esporte e atividade física na infância e adolescência: uma abordagem multidisciplinar. Porto Alegre: ARTMED, cap. 7

Ferraz, O.L. (2009) O esporte, a criança e o adolescente: consensos e divergências. In: De Rose Jr., D. Esporte e atividade física na infância e adolescência: uma abordagem multidisciplinar. Porto Alegre: ARTMED, cap. 3.

Florindo, A. & Ribeiro, E.H.C. (2009) Atividade física e saúde em crianças e adolescentes. In: De Rose Jr., D. Esporte e atividade física na infância e adolescência: uma abordagem multidisciplinar. Porto Alegre: ARTMED, cap. 2.

Gaya, A. & Torres, L. (2004) O esporte na infância e adolescência: alguns pontos polêmicos. In: Gaya, A.; Marques, A. & Tani, G. Desporto para crianças e jovens: razões e finalidades. Porto Alegre, UFRGS Editora, cap.2.

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