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1981: Mundial de Clubes Campeões. Os primórdios da estatística no basquetebol do Brasil

Amigos do Basquetebol. 1981. Dois anos após o Sírio ter conquistado o Campeonato Mundial de Clubes Campeões, o torneio voltava a S.Paulo. O Brasil seria representado pelo próprio Sírio e pela Francana.

Além deles, oito clubes representando  diversos países estariam presentes: ASFA (Senegal), 1 de Agosto (China), Clemson University (EUA), Ferrocarril (Argentina), Guaiqueries (Venezuela), St. Kilda (Austrália), Real Madrid (Espanha) e Macabbi (Israel).

O Sírio vinha com: Dodi, Paulo Estgeves, Saiani, Carioquinha, Larry, Marquinhos, Maury, Marcel, Paulo Vilas Boas, Sam Foggins, Oscar e Luizão. O técnico: Cláudio Mortari. A Francana tinha em seu elenco: Gilson, Carlão, Chuí, Toto, Hélio Rubens, Fausto, Guerrinha, Wagner, Silvio, Gera, Magno e Robertão. O técnico: o saudoso Pedroca. As equipes estrangeiras tinham craques do quilate de Cortijo (Ferro), Chris Dodds (Clemson) e Rocky Smith (St. Kilda) que depois se tornaria um dos grandes astros do basquetebol brasileiro. Mas a grande sensação era a equipe do Real Madrid. Como esquecer do time formado por Brabender, Romay, Delibasic, Fernando Martin e Corbalan (na minha opinião um dos maiores armadores que vi jogar). As equipes foram divididas em grupos e Real Madrid, Clemson e Sírio classificaram-se pelo grupo A enquanto Francana, St. Kilda  e Ferrocarril, pelo grupo B.

Os classificados do grupo A enfrentariam os classificados do B e os dois primeiros disputariam o jogo final, enquanto o terceiro e quarto disputariam a medalha de bronze. Assim sendo Clemson e Francana disputaram o bronze, com a vitória dos americanos (79×73) e Sírio e Real Madrid disputariam o título com a vitória dos espanhois depois de uma das maiores exibições de basquetebol já vistas em quadras brasileiras (109×83).

Os destaques individuais: Cestinha: Rocky Smith – St.  Kilda (252 pts em 7 jogos – média = 35,2) Rebotes: Earl Williams – Maccabi (66 em 6 jogos – média de 11) Assistências: Carioquinha – Sírio (47 em 8 jogos – média de 5,8) % de arremessos (lembrando que não havia a linha de 3) – Perry – Maccabi (70/101 – 69,3%) % Lance Livre: Malovic – Real Madrid (20/21 – 95,2%) Maior número de pontos em um jogo: Rocky Smith (52 vs. ASFA).

Mas alguns poderão estar perguntando: Mas porque falar deste campeonato, já que o Sírio venceu em 79?

O motivo é que neste campeonato foi realizado um dos maiores e melhores trabalhos de estatística já feitos neste país. Não foi o pioneiro (já que no Mundial Feminino de 1971, as estatísticas foram realizadas). Mas foi, com certeza o grande alavancador desse serviços no basquetebol nacional.

Naquele ano, eu e meu sempre companheiro Lula Ferreira ministrávamos o Curso Técnico de Basquetebol na USP. Era um grupo com 21 alunos de muita qualidade. Então surgiu a oportunidade de realizarmos as estatísticas do Mundial a convite do saudoso Artur Andreotti, diretor do Sírio.

Para nós era uma nova experiência, pois quase nada havia sido feito nesta área no Brasil. Pesquisamos material do exterior, organizamos e treinamos o grupo e fomos à luta. Sem computador, sem internet, contando exclusivamente com o trabalho do pessoal. O que foi feito naquele torneio , pode-se dizer, que seria considerado um absurdo nos dias de hoje quando apenas duas pessoas cuidam do registro de todos os dados. O trabalho era feito com 16 (sim, dezesseis)  pessoas na quadra, cada um anotando um planilha de jogo por equipe, além do mapa de arremessos e três pessoas na retaguarda para passar a limpo nas planilhas todos os registros. Ao final de cada tempo (eram dois tempo de 20 minutos)  eu e o Lula recolhíamos a papelada e levávamos a uma sala para passar tudo a limpo com a ajuda da nossa muito querida secretária Rosana Cury. Uma loucura. E em cinco minutos as estatísticas escritas à mão eram entregues aos técnicos nos vestiários.

Mas o trabalho não parava por aí. Ao final de cada rodada ficávamos atá altas horas da madrugada atualizando as estatísticas acumuladas e elaborávamos os boletins para serem entregues pela manhã no hotel das delegações. Tudo à mão e em uma máquina de escrever convencional.

O trabalho de quadra era feito com quatro planilhas:

Arremessos: divididos em curta distância, média distância, longa distância, bandejas e lances-livres

Bolas perdidas, violações, bolas recuperadas, tocos e assistências

Faltas, Rebotes de defesa e rebotes de ataque e tempo jogado

Mapa de arremessos

Cada equipe tinha uma de cada planilha com duas pessoas trabalhando nelas: um anotando e outro “cantando” as ocorrências. Ou seja, oito pessoas anotando os dados de cada equipe.

Foi um trabalho maravilhoso e que nos deu condições de aperfeiçoar o sistema até chegarmos à situação atual. Eu sempre me orgulho muito deste trabalho e guardo com muito carinho as planilhas finais e os mapas de arremessos de todos os jogos, mostrando aos alunos e amigos o que pode ser considerado o início das estatísticas do basquetebol no Brasil.

Abaixo reproduzo um texto publicado na extinta revista “Lance Livre” sobre esse trabalho: “É um trabalho inestimável pelas informações que é possível obter da simples leitura dos dados apresentados. Nos Estados Unidos, nenhuma contratação é feita sem o scouting do jogador pretendido. Os números, mais que as palavras e recomendações, é que são levados em consideração. A profissão de scout-man é altamente valorizada dada a sua importância para o basquete. No Brasil, infelizmente, é preciso uma competição do vulto deste Mundial para nos lembrarmos das estatísticas, quando isto deveria ser rotina desde o pré-mini.”

Para encerrar este post deixo algumas imagens das planilhas utilizadas naquele Mundial e homenageio todos os alunos e colegas que dele participaram: Airton Ventura, Ana Maria Alonso, Ana Ladeira, Antonio Carlos Sayegh, Armando Diz Jr, Eduardo Ramos, Francisco Carlos de Menezes, Gisela de Rosso, José Carlos Winther, José Luiz Sinhorini, Luiz Carlos CDominguez, Mara Lucy Ruiz, Margareth Loschiavo, Mercia Silva Santos, Stéfano Di Lázaro, Vanildon Zangrando, Valter Branzini, Miguel Turcatti, Ricardo Jackchuk, Tácito Pinto Filho e Carlos Sperandin. Coordenação: Lula Ferreira e Dante De Rose Junior. Secretária: Rosana Cury.


Os números indicam as regiões dos arremessos. 1 –  curta distância; 2 – média distância; 3 – longa distância; 4 – bandejas; não havia linha de três pontos

Planilha final: cada equipe tinha a sua separadamente.

Esta é a do Sírio no jogo final contra o Real Madrid (detalhe: letra do Tácito)

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6 comentários em “1981: Mundial de Clubes Campeões. Os primórdios da estatística no basquetebol do Brasil

  1. Olá Dante
    muito bom reviver nesse texto esse período tão importante do Basquetebol Brasileiro. Além dos relatos do trabalho de vocês, também fiquei saudoso com algumas outras informações que você apresentou. Vi Rocky Smith no Santa Kilda, vi também – e concordo com você – o Corbalan jogar ao vivo no Ginásio do Ibirapuera. Corbalan desfilava na quadra com uma técnica de altíssimo nível e enchia os olhos vê-lo jogar.
    Um armador no melhor dos estilos, um craque.
    Parábens pelo texto.
    em tempo, alguns dos nomes dos seus alunos tambémn tive o prazer de conviver.

    abraços

    Cesar
    Paulo Cesar Montagner
    Campinas, FEF-Unicamp

  2. Grande colega. Já vimos coisas muito boas nesse basquetebol. Tomara que agora com o NBB possamos ver nosso basquetebol ressurgir.
    Ver o Ibirapuera lotado era bom demais.

  3. Professor Dante,
    É com muita satisfação que lhe escrevo porque também sou apaixonado
    por estatísticas de basquete. Ao ler seu comentário acima voltei no tempo,
    não estava presente mas acompanhei através de jornais e revistas.
    Professor, no começo achava que esta paixão por estatísticas era algum sintoma de desiquilíbrio, acreditava estar meio louco, porque sempre gostei disso, quando era mais novo, para ser exato, na Taça Brasil de Basquete de 1973, vencida pelo Vila Nova de Goiania comecei a tomar gosto pelo basquete e nunca mais parei.
    Hoje, com 54 anos, sou um bancário aposentado, mas estranhamente, nunca deixei de fazer minhas anotações através de cadernos, depois máquina de escrever e atualmente computador. Tenho de há muito tempo anotações de número de jogos e pontos, a partir de 1996 no campeonato nacional da CBB, começaram realmente a divulgação de estatísticas do basquete brasileiro, e eu fui somando e acumulando dados de diversos torneios, campeonatos de clubes e seleções.
    Sempre tive um sonho de formar um extenso banco de dados de atletas, técnicos e até árbitros que trabalharam e trabalham no basquete nacional, graças a Deus, está tudo na cabeça mas tem que ter tempo e inspiração para colocar no papel, mas a paixão pelo basquete nunca acaba e se Deus quiser, um dia a gente chega lá,
    Um abraço,
    Josué Jorge Jr
    Castro PR

    1. Olá amigo Josué, com certeza os esforços em registrar as estatísticas é extremamente importante para resgatar bons tempos do basquete (vitórias internacionais importantes) e termos material para essa juventude que precisar conhecer como era o basquete eu diria em um passado recente, pois consegui jogar em um período com grandes nomes do basquete e com certeza aprendi muito com eles. Falando do Stats Basket que o prof. Dante também conhece, informo que inseri mais alguns campeonatos como liga sulamericana de clubes, ligas das américas, etc.

      Um grande abraço! Luiz Fernando Helminsky – Piracicaba-SP (www.insidebasketball.com.br/stats)

  4. Ola Dante
    Com que prazer deixo meu comentario sobre o Mundial de Clubes, onde participei na parte das estatisticas e me deixou muitas lembranças e me ajudou muito profissionalmente. Saudades daquele tempo, onde voce e Lula organizaram muito bem essa parte do mundial.
    Um grande Abraço, Vanildon

  5. Prezado Prof. Dante, obrigado pelo texto que me trouxe gratas lembranças. Sou tambem um apaixonado por basquete e por estatisticas. Em 81 eu tinha 14 anos e assisti algumas rodadas da fase de classificacao do Mundial no Ibirapuera, alem da grande e inesquecivel rodada final. Carioquinha e Oscar eram meus idolos (os vi trocarem o Palmeiras pelo Sirio, por isso torci muito pelo clube em cujas quadras, ali pertinho, tambem joguei algumas vezes). Por causa do Carioquinha eu jogava com uma regata numero 7. No Mundial, impressionou-me o incrivel Rocky Smith no Sta. Kilda, que depois jogou bastante aqui… e o Real Madrid era um timaço, com Corbalan e o iugoslavo Delibasic, um monstro tambem. Meu filho hoje tem quase a minha idade naquela epoca, espero que ele tambem venha a ter o mesmo privilegio que eu tive de ver ao vivo um basquete de alto nivel aqui no Brasil.

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