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Esporte na escola: a solução dos nossos problemas?

Terminada a NCAA somos “invadidos” por uma série de considerações sobre o “modelo de esporte norte-americano” que é baseado na prática esportiva escolar e que, no caso do basquetebol, culmina na ida dos universitários para a NBA.

Nesta “invasão” chega-se a propor a adoção do mesmo modelo aqui no Brasil o que me parece uma grande precipitação.

A prática esportiva escolar é, inegavelmente, um dos fatores de desenvolvimento esportivo de um país. É naquele ambiente que o esporte pode exercer sua função de inclusão. Mas, no caso brasileiro, a questão é muito mais complexa pois passa por fatores que impedem que esta prática seja difundida por todo o país.

Inicialmente, devemos lembrar que o esporte na escola está vinculado à prática da educação física que faz parte de um contexto muito mais amplo chamado “educação”. Nessa perspectiva como podemos pensar em uma prática de educação física (e esportiva) massiva se a nossa “educação” é tratada de forma não prioritária por aqueles que deveriam olhá-la como a principal solução para gerar um desenvolvimento mais adequado de nossos jovens e, consequentemente, do nosso país?

Este fator gera consequência desagradáveis para nosso esporte, pois não havendo prática massiva nas escolas, deixamos de ter equipes, e, consequentemente, deixam de existir competições escolares que deem aos praticantes a chance de participar com mais frequência de eventos esportivos. E o caso se agrava quando chegamos ao esporte universitário que, a meu ver, perdeu totalmente sua finalidade e, atualmente, é gerido de forma negligente e até, irresponsável por grupos que estão muito mais preocupados com as festas e manifestações que os torneio universitários promovem do que propriamente com a prática esportiva em si.

Em segundo lugar temos um problema sério de formação de nossos futuros professores/técnicos pelas Escolas de Educação Física que, há muito tempo, deixou de lado essa preocupação para se dedicar a outras fatias do mercado de trabalho, talvez mais rentáveis e até algumas movidas por um modismo passageiro. Hoje, nas maioria absoluta das Escolas de Educação Física,  o esporte é tratado como algo acessório, destinando-lhe poucas horas de aulas numa abordagem superficial e, em alguns casos, de forma discriminatória como se o esporte fosse o “mal a ser extirpado”.

Em terceiro lugar há uma questão cultural esportiva que predomina em nosso país e que dificilmente será modificada, pois vem de décadas e segue o modelo europeu, assim como muitas outras práticas em outras áreas de atuação, que é ter o clube como célula principal da prática esportiva.

Desta forma, querer replicar um modelo que tem a escola como base de tudo me parece inadequado para nossa realidade.

Mas isto não significa que o esporte escolar não deva ser resgatado. Temos que fazer um grande esforço para recolocar o esporte na grade das escolas, democratizando sua prática assim como, temos que batalhar para trazer o esporte de volta às grades curriculares das Escolas de Educação Física. Talvez desta forma voltemos a ter jogos escolares que revelem atletas para os clubes, mas que, principalmente, deem a chance para aqueles que não podem ter acesso a esses clubes, de demonstrar suas capacidades e habilidades.

Não acredito em mudança de cultura. Isto levaria muito tempo. Mas acredito em mudança de atitude das pessoas que podem fazer algo para que o esporte seja levado a sério neste país e não somente por causa de eventos que são realizados esporadicamente e, talvez, nunca mais, venham a ser realizados no país.

Um país que irá realizar a Copa das Confederações, Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos não pode virar as costas a esta realidade. Mais do que construir estádios, grandes centros de treinamento, investir milhões na preparação de atletas de alto rendimento, conseguindo patrocínios milionários, nossas instituições esportivas deveriam desviar ligeiramente o olhar para este setor.

Talvez destinar uma pequena parte dos vultosos recursos para a formação de profissionais para atuar com dignidade nas escolas e para  prover as escolas de estrutura decente para que os jovens possam usufruir, nesse espaço altamente democrático, dos benefícios da prática esportiva não seja tão difícil quanto pareça.

Assim, quem sabe, um dia poderemos ter novamente atletas despontando da escola para os clubes e, no caso do basquetebol, para o NBB e , com certeza muito mais gente praticando o basquetebol.

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5 comentários em “Esporte na escola: a solução dos nossos problemas?

  1. Pois é Dante, esse assunto é muito polêmico e precisa ser discutido profundamente para construirmos uma nova realidade e, também, uma nova cultura esportiva (eu ainda acredito nisso).
    Aproveito a “deixa” para divulgar o Curso que nós do Programa de Desenvolvimento Humano pelo Esporte realizaremos no CEPEUSP exatamente para debater os sistemas e estruturas das competições infanto-juvenis dos clubes e também do esporte escolar. Quem quiser mais informações é só acessar http://www.cepe.usp.br

  2. O panorama escolar Brasileiro e caótico e sem perspectivas de melhoras …desesperador para nos professores…

  3. Faz muito tempo que defendo o esporte na escola como a solução para a formação da base, não só do basquete, mas de qualquer modalidade. Não concordo quando você fala que o problema é adotar um modelo (desporto escolar) que conflitaria com aquele já existente (desporto comunitário). Ao contrário, acho que antes de conflitantes, são complementares. O descaso com o desporto ou esporte nas escolas é anterior ao descaso das autoridades com a educação. Vem de dentro das nossas próprias linhas – profissionais de educação física – como você mesmo citou “o mal a ser extirpado”. A maioria dos municípios que trabalhei promoviam ou promovem jogos escolares, o que não tem são equipes para participar. O próprio COB organiza uma competição nacional de nível escolar, e obriga os estados a realizar uma competição voltada às escolas para indicar seus representantes. Faltam participantes e quando aparecem ou são completamente desestruturados ou estão baseados no trabalho de algum clube ou município. Concordo quando você diz que o esporte escolar deve ser resgatado e vou mais longe, nós da educação física o sucateamos, cabe a nós fazermos esse resgate.
    Abraços

  4. Entendo que o caminho para um desenvolvimento esportivo é sim, o esporte escolar. Mas enfatizo que esporte escolar é diferente de educação física escolar. Esta última deve tratar de diferentes manifestações da cultura física e dentre elas, do esporte, mas de maneira generalizada. O esporte em si deve ser desenvolvido no contra-turno (sei de todos os problemas para o fazer, mas ainda assim, seria a solução). Primeiramente através de uma iniciação geral, universal e posteriormente através de uma iniciação especializada. A tranfesrência de um modelo esportivo europeu, clubístico, para um modelo americano, escolar, no meu modo de ver, não é necessária, mas sim, ambos podem caminhar conjuntamente. Para que o esporte escolar seja fomentado, é necessário força política. Esta somente existirá quando os próprios profissionais de educação física buscarem que o seja. O início, como bem enfatizou o professor Dante, está na formação universitária, que realmente parece estar preterindo o esporte em função de disciplinas modistas ou menos práticas… Parabés pelo blog e comentários em geral!

  5. Com certeza é na escola que nos auto-afirmamos como pessoas e se queremos uma comunidade que valorize os esportes, as escolas devem promover a educação para o esporte, assim como a educação para a cultura, a saúde, etc, etc…A escola hoje está muito aquém de suas possibilidades. É verdade que a educação de modo geral está cheia de problemas estruturais e de valorização. Mas quem deve cuidar da educação? As pessoas responsáveis devem dar as respostas necessárias para tirar a educação de onde está e vê-la caminhar com passos seguros para um caminho digno, pois o que vemos proliferar são pessoas sem objetivos, semi-analfabetos, sem atributos intelectuais, sociais e muito menos físicos. Ouço falar sobre escolas em tempo integral. Isso é uma política ou politicagem? O que vamos fazer com as crianças e adolescentes durante 10 ou 12 horas diárias nas escolas? E que escola é essa? Com certeza, com professores motivados, instalações decentes e com esse tempo todo, poderíamos fazer um excelente trabalho esportivo nas escolas e dar uma nova perspectiva aos estudantes que refletiria diretamente no esporte dos clubes e do nosso amado Brasil.

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