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O que acontece com nossa base?

Mais uma vez fomos “detonados” pela Argentina em um campeonato sul-americano de base (no caso o sub-15). Na semifinal do referido torneio perdemos de 73×30. Antes disto já havíamos perdido do Uruguay, um país menor que a zona leste de S.Paulo.

Então vem a pergunta: o que acontece com nossa base?

Em 15-11-2010 editei um artigo intitulado “Como nossos futuros atletas estão sendo formados” e nele apontava alguns fatores que poderiam estar atrapalhando a verdadeira formação dos nossos futuros jogadores de basquetebol.

Entre eles destaque o imediatismo dos treinadores, buscando resultados para o próximo jogo, a importância dada à obtenção precoce de campeonatos sem pensar no processo de formação do atleta, a pressão dos clubes pelos resultados imediatos, a forma das competições, o “adestramento” das crianças em detrimento do conhecimento do jogo, a especialização precoce em determinadas funções e a formação do profissional.

É claro que todos esses fatores reunidos só podem resultar no que estamos presenciando no momento.

Não discuto aqui a capacidade dos profissionais que hoje dirigem as seleções de base. Eles, na verdade, recebem o produto já definido e têm que “se virar” para torná-lo algo parecido com uma equipe.

Não cometeria aqui a injustiça de dizer que nossos profissionais não estudam. Mas talvez não consigam colocar em prática de maneira adequada o conhecimento adquirido. Até porque, nas escolinhas formadoras via de regra quem atua são “profissionais” recém-formados ou mesmo estagiários, “supervisionados” por técnicos mais experientes.

Também não podemos ignorar que nossa forma de tratar a base não é a mais adequada, quando sabemos que os clubes acabam por assumir a responsabilidade de ser a célula formadora de atletas, função que deveria ser destinada a instituições menos seletivas e mais democráticas, como a escola, por exemplo.

Também não entendam essa opinião como uma crítica aos clubes. Eles fazem até demais. Mas deveriam ser a parte final do funil e não a sua entrada.

E o que dizer das competições? Quantos clubes participam de competições nas categorias de base? Como elas são organizadas? O que se pretende? Destacar somente os campeões? Dar troféu ao cestinha e ao melhor do campeonato?

Será que uma forma mais participativa não poderia ajudar nesse processo de formação? Onde estão os ganhadores dos troféus de melhores do ano? Quantos chegam ou chegaram ao topo?

Enfim, são tantas as variáveis que fica muito difícil determinar aquela (ou aquelas) que estão fazendo com que nossa base esteja doente.

Temos que agir. Profissionais e instituições. Mas agir de forma assertiva e não calcada em críticas vazias e oportunistas.

Temos que assumir que existe um problema. Caso contrário, continuaremos lamentando as derrotas para nossos vizinhos.

Que tal descermos do pedestal e tentar aprender o que eles fazem de bom? Não seria nenhum demérito. Seria apenas ter a humildade de aprender com quem já faz a coisa certa há muitos anos.

 

 

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8 comentários em “O que acontece com nossa base?

  1. Caro Dante… Sinal amarelo mesmo….. Isso não pode ser um acontecimento pontual… vem se repetindo ano a ano. Ta na hora da CBB marcar um simposio, encontro, seminario, lei la e discutirmos esse assunto SERIAMENTE.. senao o futuro será muito nebuloso…..

  2. Caro Mestre Dante:
    em 1987 fiz um intercâmbio na Argentina, Rosário mais precisamente. Em contato com os técnicos de base, em especial os de escolinha e nas idades Sub 12 e Sub 13, eles ficaram incrédulos com o que fazíamos aqui. Enquanto isso eles já possuiam uma associação nacional de mini basquete onde ninguém, absolutamente ninguém, se intrometia com palpites e opiniões indevidas e/ou políticas. Nessa associação nacional, a um custo irrisório pago por criança, era oferecido ortopedia, fisioterapia, nutrição, psicologia esportiva, cursos e treinamentos adequados e festivais de mini basquete adaptados às idades, que os levavam pelo país inteiro, e ainda contribuiam para sua educação e cultura ao conhecerem as diversas cidades e costumes populacionais. Ou seja, a formação de pessoas para o futuro, incluindo os gordinhos, os magrinhos e os desajeitados, e a adequada formação de base em basquetebol. Daí os resultados ao longo dos anos. Enquanto isso, por aqui…campeonatos competitivamente exacerbados nas categorias sub 12 e sub 13, pais brigando nas arquibancadas e como vc disse, melhores do ano, cestinhas dos campeonatos e campeões que hoje não se sabem nem quem são nem quando foram e aonde estão. Minha pequena experiência com essas categorias me mostrou que a seleção de atletas para esses campeonatos atende o imediatismo exigido dos técnicos e portanto equivocada para o futuro do basquete: maturação biológica precoce. Nesse caso os meninos de Sub 12 e Sub 13 são mais fortes, mais velozes e apresentam um rendimento muito superior aos dos demais que possuem a maturação adequada, mas também começam a diminuir sua velocidade de crescimento (osso) e sua velocidade de desenvolvimento (especialização celular). Entram num patamar de estabilidade e tem seu futuro esportivo reduzido. O pior, é que os com maturação biolólgica tardia, ou seja, os que provavelmente teriam maior chance de futuro esportivo (como a Hortência por exemplo) não tem a menor oportunidade de praticar. Longe disto ser uma verdade absoluta, acredito com todas as forças que são fatores que contribuem para o atual estado de coisas.
    Concordo com Mestre Medalha ao sugerir um encontro para se discutir o presente e o futuro, mas que também as comissões técnicas das seleções de base nos mostrem o que foi aprendido nessas competições e nos cursos aqui ou no exterior que lhes são oferecidos, ao invés desse conhecimento ficar só nas seleções. Do contrário, os produtos (os atletas) que lhe são entregues continuarão não tendo o nível desejado para competições internacionais.

    1. Não tenho o que tirar do texto e comentários, trabalho com a iniciação e estudo bastante o basquete, não da pra falar muita coisa pela ética, ja que conheço muitos professores buscando esses resultados imediatos, treino intenso, repetições de gestos técnicos sem o prazer pelo jogo e cobrança por vitórias e campeonatos, outro ponto negativo é que normalmente se coloca professores com menor experiencia, recém formados na iniciação como se fosse menos importante ja que nesta fase não tem o mesmo prestigio do profissional.

      1. Perfeito Sergio! É como se a criança não tivesse a menor importância, e por isso tratada com desdém, quando seria necessário um ótimo trabalho de base em Educação Física. Quanto à ética, eu tambérm conheço muitos professores mas nada impede de se apontar erros ou o que se pode melhor e ainda novas idéias, sem que se diga nomes.

  3. Exatamente Alcir, acho que os professores que se acham técnicos de times profissionais deveriam pensar nas crianças que estão treinando e não neles próprios, essa vontade de jogar para vencer é o desejo do treinador em ser campeão que fala mais alto que aquilo que todo treinador da base deveria ter que é o sonho de ver seu aluno alcançando os objetivos no futuro e sendo honesto, confiante entre outros adjetivos, como jogador de basquete ou em outra profissão, com certeza esse jovem quando adulto não teria passado por decepções na iniciação.

  4. Caros amigos do Basquetebol Brasileiro, concordo com todas as informações e pensamentos do sr. Dante, mas também tenho que compartilhar minha indignação com quem dirigiu a equipe. Pois poucos sabem, nas olimpíadas Escolares 2011, o próprio técnico sr. Ricardo participou de uma ação que me deixou pasmo. Fizeram o famoso “xunxo”, ou seja, fizeram um resultado para desclassificar outra equipe. Então cá entre nós. Esse é o pensamento de um técnico de BASE para uma seleção Brasileira???
    Fica aí o meu protesto….
    Grande Abraço

  5. Caro Professor,

    Um exemplo clássico me surpreendeu quando um primo meu de 13 anos, que joga em um clube grande de SP, em 2011 ficou entre as melhores equipes da competição. Mas ao chegar de férias para uma visita descobri que os fundamentos mais básicos não existiam de forma alguma em seu repertório. Desde o uso da mão canhota, até mecânica de arremesso e saída cruzada nunca foram trabalhados em 2 anos de clube. Porém, por ser grande para a idade (1,90) ele sabia, e muito bem fazer corta-luz, bloquear rebote e várias jogadas (flex, 1-4, etc).
    Após 2 semanas de treino de fundamentos básicos por aqui e concientiza-lo da importancia desses fundamentos ele está mantendo uma média de 20 pts no Campeonato Paulista Sub-14 (a média dele ano passado foi de 5).

    Agora a pergunta: ele não foi ensinado porquê o técnico dele não sabe ou porquê precisavam de resultado imediato pra se segurar no cargo?

    Um abraço, parabéns pelo blog.

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