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UM GIRO PELO BASQUETEBOL DA EUROPA: ISTAMBUL, BELGRADO, ZAGREB, BARCELONA – parte 2

Amigos do Basquetebol

Esta é a segunda parte da contribuição enviada pelos colegas Miguel Palmier e Rodrigo Kanbach.

BELGRADO, SÉRVIA –  2ªsemana.

Chegamos a Belgrado ávidos para acompanhar os treinamentos da Academia FMP, ainda mais depois do sucesso de Dusan Ivkovic e de Milos Teodosic nas finais da Euroliga.

A Sérvia é um país que saiu há apenas 13 anos de guerras consecutivas, Kosovo, Sarajevo e todas as outras que as antecederam, e não foram poucas. Além disto, tenta se libertar ainda de padrões estabelecidos pelo comunismo e pela ditadura de Slobodan Milosevic e por tudo isto o pais ainda se recente com uma economia fraca baseada na agricultura e um povo muito fechado que só demonstra alegria em raríssimos momentos de intimidade, jamais em público.

Os treinamentos são duríssimos, pois se tem uma consciência muito grande de que para muitos garotos daquele país o basquetebol é a salvação da sua vida e de sua família, muito parecido com que temos aqui com o futebol. Um futuro melhor é o que eles esperam, não vão para a quadra querendo apenas ter uma atividade física para fazer, ou se recrear vão porque querem ser profissionais e ganhar a vida desta forma: jogando basquetebol. A partir daí vocês podem imaginar o respeito que há pelos treinadores e pelas instituições, o treinador não precisa cobrar intensidade nos treinamentos, isto vem com eles, se realizam algo errado que sabem fazer, chegam ao ponto de se martirizar e repetem, repetem, repetem até a exaustão.

Aliás, esta é a tônica dos treinamentos das categorias de base na Sérvia: REPETIÇÃO E INTENSIDADE. Nada do que não tenhamos conhecimento por aqui, excetuando-se alguns detalhes, a diferença está na cultura do povo e os que motivam a fazer treinamentos tão duros. Gostaríamos de ressaltar que não há interferência nenhuma dos pais no processo, sendo eles meros expectadores em dias de jogos. Não presenciamos em momento algum pais assistindo treinamentos, pois confiam nos treinadores e estes são como MESTRES com letras maiúsculas para eles. Discordamos por muitas vezes dos xingamentos e até humilhações que os treinadores impõem aos seus atletas, (lógico que não entendemos muita coisa da língua Sérvia, mas dava para perceber que não era carinho) mas como disse antes a cultura é completamente diferente. Imaginem um pai com o Estatuto da criança e do adolescente nas mãos, encontrar um treinador deste, ele estaria preso na mesma hora aqui no Brasil. Friso bem: Não concordamos com estas atitudes.

A Academia FMP é uma instituição privada, com fins lucrativos, onde para ficar interno nela se paga mensalmente uma quantia. Lá o garoto tem alimentação, escola e alojamentos de primeiríssima qualidade. Os alojamentos têm padrão de hotel três estrelas. A escola fica a trinta metros atrás do alojamento e o ginásio principal entre o alojamento e a escola. Eles têm ainda mais dois ginásios na cidade onde treinam as categorias U 12 e U 13. Todos, desde a mais tenra idade, têm contrato assinado com o dono da academia, um milionário que investe em jogadores de Basquetebol, pois é um apaixonado pelo jogo, e nada melhor ter lucro com aquilo que se tem paixão. Há um ano a FMP incorporou o Estrela Vermelha que vinha mal financeiramente e, portanto a Academia injetou dinheiro na marca e se fundiu. Mas não deixa de ter uma equipe de garotos U23 jogando a Liga Sérvia, na mesma divisão do Estrela Vermelha, é o que os Espanhóis chamam de cantera.

A equipe profissional e o treinador Pesic.

Tivemos a oportunidade de ver um clássico do basquetebol Sérvio ao vivo: Estrela Vermelha x Partizam. É como se jogassem Corinthians e Palmeiras ou Vasco e Flamengo. Aliás, os Sérvios na hora de torcer não devem nada aos gregos, são muito inflamados, e mais, entendem de basquetebol, só são irresponsáveis na hora de atirar objetos na quadra. Como muita gente fuma, tanto na Turquia como na Sérvia, eles atiram isqueiros em uma quantidade inacreditável na quadra de jogo, atingindo por vezes os árbitros e ou jogadores. Existe a revista pessoal e da mesma forma não se pode entrar com câmeras e etc…, mas os tais dos isqueirinhos passam e na hora que o time está perdendo parece que chovem na quadra. Neste ponto eles estão muito mais atrasados que nós.

O jogo foi de uma fase classificatória e o Partizam ganhou na prorrogação. O que pudemos ver foram defesas hercúleas, onde para se pontuar o atacante tinha que fazer um esforço tremendo, e se não bastasse não tem contra-ataque, pois as faltas táticas são usadas em larga escala. Se algum jogador escapa, faz-se falta para que não faça bandeja, não importa se é o melhor do time ou se é o pior, todos tem esta determinação, aí meus amigos o jogo fica chato demais. A arbitragem não liga nem reprime. Tivemos a noção exata do que é jogo físico nesta partida. Na Euroleague os jogadores estavam mais comedidos.

Durante o contato que tivemos com os treinadores nos foi possível observar que alguns não gostam muito de conversar e até se esquivam de perguntas e debates, são muito fechados. Pesic teve um breve contato, mas também muito rápido e não do tamanho que queríamos.

Sobre os treinamentos de Pesic, que estava entrando em fase preparatória para as semifinais da Superliga Sérvia, cobrava muito dos seus comandados o “time” na ofensiva e a intensidade na defesa, do alto das suas conquistas e idade, não se furtou a correr e a comandar nenhum treinamento.

Existem 4 divisões na Sérvia, e as principais equipes estão na capital Belgrado.

Durante a temporada jogam a Liga Adriática, Liga dos Balcãs e a Liga Báltica, as equipes da Sérvia são divididas pelas colocações em cada liga destas, sendo que a maior liga é a Liga Adriática que tem tido inclusive a participação de equipes de Israel.

ZAGREB, CROÁCIA –  2ª semana.

Após uma viagem de 5 horas em uma van, chegamos a Zagreb na Croácia. Detalhe, tivemos que ir de van, pois não existem mais voos entre a Croácia e a Sérvia desde a última guerra, por questões de estratégia militar.  Que bela cidade nos pareceu logo no primeiro momento, depois de termos passado uma semana na Sérvia, parecia realmente que estávamos de volta à Europa. Muito bem estruturada, povo alegre e caloroso, nos pareceu que por lá a crise ou as guerras não haviam afetado muito a população.

 Museu DRAZEN PETROVIC

Tivemos a oportunidade de fazer uma visita ao museu de Drazen Petrovic, onde fomos calorosamente recebidos por sua mãe e a curadora do museu. O culto ao ídolo e atleta maior daquele país nos emocionou, e ficamos mais orgulhosos ainda quando a mãe de Drazen, sabendo que éramos brasileiros, lembrou que por várias vezes Drazen enfrentou Oscar Schmitd, um dos maiores ídolos do Basquetebol Brasileiro. O museu é muito bem cuidado e é anexo ao ginásio do Cibona Zagreb, local onde Drazen deu seus primeiros passos como jogador profissional. Fomos agraciados com um lanche no Café Amadeus de propriedade da mãe de Drazen, que nos relatou que assim que ele fechou seu primeiro contrato fora, Real Madrid, com as luvas ele comprou o café, que fica na entrada do ginásio, pois era um apaixonado pelo local e pelo café em si.

Após esta visita tivemos a oportunidade de visitar toda a estrutura do Cibona Zagreb, vestiários, ginásio, área VIP com as flâmulas e troféus, e para nossa surpresa encontramos flamulas do Clube Monte Líbano de São Paulo e do SC Corinthians Paulista na sala de troféus do Cibona.

Tivemos ainda a oportunidade de observar treinos específicos de fundamentos para categoria U19 e da equipe profissional, a qual o treinador principal fez questão de nos receber muito bem.

BARCELONA, ESPANHA –  3ª semana.

Mesmo sabendo que não deveríamos poder observar as categorias de base do Barcelona, pois os campeonatos já estariam terminados, chegamos na época das semifinais da LIGA ACB, onde os dois primeiros jogos com o rival Valencia seriam na cidade. Entre museus e praias magníficas e muita conversa em seus vários bares das famosas tapas, fomos convidados por seu diretor, Jordi Ardevòl, uma pessoa bem solícita e simpática, a acompanhar os jogos no Palau Blaugrana. E o que vimos foi um show dos brasileiros Huertas pelo Barcelona e Faverani, pelo Valencia. Este último deu um salto qualitativo e de maturidade nesta temporada em relação a 2011 no Murcia, sendo o esteio de todo o sistema ofensivo de seu técnico croata Perasovic.

FINALIZANDO

O que ficou foi a sensação de que todos que militam no basquetebol, sejam treinadores, dirigentes ou atletas, deveriam passar por uma experiência desta. Cremos que o contato com outros povos, e outras culturas “basquetebolísticas”, nos fez crescer, até mesmo para ter certeza que não estamos muito longe daquilo que eles praticam no seu dia a dia. Traz também a certeza que temos muitos bons valores como treinadores no Brasil, o que precisamos é dar a chance para que eles realizem intercâmbios para que se credenciem cada vez mais e possam desenvolver tudo aquilo que sabem em favor de uma qualidade técnica maior dos nossos jogadores e da nossa forma de jogar.

Esperamos ter colaborado de alguma forma com aqueles que não tiveram a chance ainda de realizar um intercambio desde, e que ponham, os mais novos principalmente, como meta na sua carreira, buscar sempre, com muita humildade, o conhecimento. Se DEUS quiser e nos ajudar até a próxima no ano que vem, rumo aos EUA.

Abraços; Miguel Palmier e Rodrigo Kanbach.

Obs: os textos apresentados nesta coluna são de inteira responsabilidade de seus autores e não sofrem qualquer alteração de conteúdo.

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Um comentário em “UM GIRO PELO BASQUETEBOL DA EUROPA: ISTAMBUL, BELGRADO, ZAGREB, BARCELONA – parte 2

  1. Lendo artigo dos colegas eu penso que tratamento de pessoas é muito pessoal tem gente que se dá bem tem gente que se dá mal,no Brasil ser exigente ás vezes passa por ser duro demais,e o que falta são exemplos de bons técnicos de basquete que realmente ensinem quem quer aprender.Quem quer aprender sabe que o tratamento nem sempre vai ser carinhoso,e o que pode parecer humilhação no mundo “normal” muitas vezes no esporte não é.
    Abraço e foi muito boa a contribuição dos colegas.

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