Colaboradores · Todos os posts

Esporte e voluntarismo na Austrália

Nosso colaborador agora é o Prof. Dr. Jorge Knijnik, formado em Educação Física pela Escola de Educação Física e Esporte da USP e que se transferiu para a Austrália onde é ’ professor da School of Education at University of Western Sydney e autor de Handebol – Odysseus Ed. http://odysseuslo2.lojatemporaria.com/agon/handebol.html.

O grande historiador e filósofo do esporte, o australiano nascido em Adelaide, Daryl Adair uma vez ja chamou o esporte de ‘a vaca sagrada’ da Austrália.

Os brasileiros tem uma visão da Austrália sendo um ‘paraíso esportivo’; talvez pela quantidade de medalhas olimpicas e pelo sucesso deste pais no esporte de rendimento, ficamos achando que a Australia deve ser ‘tudo de bom’ nesta area…

Se voce pegar seu carro e sair pelas ruas de Sydney e adjacências em um sábado ou domingo a tarde, irá ver centenas, ou melhor, milhares de crianças, jovens, adultos e gente de todas as idades, culturas, sexos, cores, jogando uma diversidade incrivel de modalidades: rugby (dois tipos diferentes), cricket, futebol (o ‘nosso’…), futebol australiano (sim, aqui joga-se Australian Football Rules, o ‘footy’, um jogo bem interessante, dezoito de cada lado! Com liga profissional, TV, bons salarios e bastante gente jogando ‘for fun’ tambem); netball, baseball (e suas derivacoes) entre varios outros.

No seu passeio, o visitante irá também ver centenas (isso mesmo) de grandes campos gramados (o que eles chamam de ‘oval’) ocupados por estas pessoas, espacos públicos comunitários para a prática esportiva.

Para quem gosta, isso é muito legal! Muita gente olhando, jogando, se divertindo, competindo… Mas tem uma coisa que vai chocar o leitor brasileiro, principalmente se ele for professor de Educação Física (como eu, aliás) ou, nos tempos atuais, ‘profissional de EF’, com registro em algum Conselho Regional da área.

Este esporte de final de semana, praticado por milhares de pessoas, é totalmente organizado, dirigido e coordenado por… voluntários!

Isso mesmo, managers, organizadores, técnicos e professores são voluntários. Pais, mães ou pessoas da comunidade que se voluntariam para tocar o time dos seus filhos e filhas, irmãos menores e amigos.

Tanto para dar treinos,  quanto para preparar as tabelas, pintar as marcações dos campos, vender na cantina, arrecadar fundos para os clubes, fazer o churrasco, enfim, tudo o que se refere aos clubes onde o ‘esporte de base’, ou o esporte ‘participativo’é tocado basicamente por voluntários, sem formação em EF! Aliás, pouca relação a EF tem com este esporte por aqui…

Chocado? Revoltado? Acha que o Conselho Brasileiro devia processar todos os sem-registro australianos?

Esta é a tradição aqui, o voluntariado, as pessoas fazendo coisas por sua comunidade.Eu, como bom professor de EF, estranhei no começo – onde estão os profissionais? O que este pessoal entende de movimento humano?

Então me voluntariei para ser técnico de um time de futebol Under -6… Foi uma farra, dirigir aquela molecadinha nos treinos semanais e nos jogos aos sábados de manhazinha. Jogamos mais de duas dezenas de joguinhos de ‘small-sided soccer’, 4X4 com campinho pequeno e golzinho em ‘ovals’ espalhados por Sydney.

Sempre com uma intensa vibração da comunidade voluntária organizando tudo, arrumando os campos, arrecadando grana nas cantinas, publicando as tabelas, tirando fotos.

Às vezes a galera chega antes das 7 da matina, naquele friozinho gostoso, para cortar a grama, acertar os postes e as linhas dos campos e espalhar cones.

Mas a pulga continuava atrás da minha orelha. Afinal, voluntários não entendem muito de esporte. A resposta veio no verão de 2011, quando uma tragédia natural quase que destruiu a terceira maior cidade australiana.

Brisbane, capital de Queensland, foi inundada pelo rio que corta a cidade. Eles chamaram isso de ‘Tsunami in-land’, e foi realmente horrível e impressionante a destruição. Momentos de tristeza e terror.

Quando as águas baixaram um pouco, as pessoas começaram a voltar para suas casas, alagadas, destruidas, cheias de lama, etc. E simplesmente começou um trânsito nas entradas da cidade, lotadas, entupidas por nada menos que 24.000 (isso mesmo, vinte e quatro mil) voluntários, que saíram de suas casam por toda a Austrália, pegaram seus carros, pegaram aviões, para ajudar a reconstrução da cidade.

Velhos, mulheres, crianças, gente de todas as culturas, nacionalidades, sexos, idades. Algo lindo, impressionante, tocante!

Aí eu entendi aonde nasce este espírito voluntário. E que nos campos esportivos se aprende muito mais do que técnicas esportivas ensinadas por profissionais. Ali se aprende a construir uma alma comunitária!

Obs: Os textos são de inteira responsabilidade de seus autores e não sofrem qualquer modificação em seu conteúdo.

[1] Este texto foi publicado originalmente em 2011 no blog Historia(s) do Sport – http://historiadoesporte.wordpress.com/2011/02/21/esporte-e-voluntarismo-na-australia/

Anúncios

4 comentários em “Esporte e voluntarismo na Austrália

  1. Muito legal as informações do Prof. Jorge. Belo exemplo.
    Aqui é cada um por si e Deus por todos, onde uns querem ser mais “espertos” que os outros. E por aí vai.

  2. Oi Jorge, meu querido amigo, ex-colega de faculdade e de clube (Hebraica). Não sabia dessa cultura de voluntariado no esporte da Austrália. Me surpreendeu, principalmente pela cultura britânica que a Austrália carrega. Esse voluntariado no esporte me parece algo meio americano, já que nos EUA os pais são super atuantes nas equipes dos filhos (ensinam, dirigem,administram), e professores que não são de Educação Física são os coaches nas escolas. O que é bem curioso, porque onde se formam os melhores jogadores de basquete do mundo, por exemplo, os técnicos das categorias iniciais nas escolas são professores de História, Matemática, Inglês…, sem a mínima formação na nossa área. No máximo jogaram basquete ou até são simplesmente amantes do esporte (mais ou menos o que acontece aqui no Brasil com o futebol). Um exemplo disso é que nossa amiga Silvia Helena Tosi, formada na EEFE-USP e com mestrado em basquetebol, não conseguiu sequer dirigir um time de basquete numa High School americana, já que a vaga era de um professor de História (acho) e eles não o trocariam por ela de jeito nenhum (hilário). Mas acredito que não esteja falando exatamente do que você contou que acontece aí na Austrália (acho que estamos falando de coisas um pouco diferentes?). O comentário foi só para, além de aproveitar a chance de me comunicar com você, relatar minha surpresa em achar que esse comportamento voluntário fosse algo mais da cultura americana (falo do voluntariado no esporte, especificamente). Um beijo pra você e pra família!

    1. Oi,Marcinha querida!Obrigado pelo seu comentario inteligente, as usual. Acho que a convergencia entre as nossas ideias esta no fato de ambos mostrarmos que, ao contrario do que pensam os crefs da vida, o esporte e’ um fenomeno socio-cultural tao grande que nao pode ficar restrito ao ‘conhecimento’ bacharelistico…E vou te dizer, pelo que tenho visto pelo mundao afora, o esporte ‘de base’ apenas se sustenta com a participacao massiva de voluntarios – afinal, nao haveria dinheiro que pudesse sustentar tanta gente participando, apitando, orientando a garotada, montando os campos, trabalhando na cantina…E isso naturalmente ajuda a expandir a pratica, traz mais gente, gera uma massa de praticantes, interessados, amantes, gente fazendo, nao apenas olhando…E’ uma cultura que ainda precisa ser implementada na America do Sul…Um beijao grande para sua familia basqueteira!

  3. Olá tenho interesse em fazer um intercâmbio na australia na área de educação física, para engrandecer o meu curriculum e meu inglês. tenho 23 anos e sou formada em educação física. será que voce pode me ajudar? grata, att ursula

Os comentários estão fechados.