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Esporte na infância: stress ou divertimento?

Amigos do Basquetebol

Trago a vocês um artigo de minha autoria que foi publicado em 1997 nos Anais do III Simpósio Mineiro De Psicologia do Esporte, realizado em Juiz de Fora. Acredito que apesar dos 15 anos que separam a publicação original deste post, o assunto é atual e pode servir de orientação aos profissionais que trabalham nas divisões formativas do nosso basquetebol.

Esporte na infância: stress ou divertimento?

O esporte vem ocupando um espaço sempre maior na vida das crianças e jovens. A influência dos eventos esportivos divulgados com grane frequência pelos meios de comunicação, a identificação com ídolos, a pressão dos pais e amigos, fazem com que um número crescente de crianças iniciem a prática esportiva cada vez mais novos.

Treinar, competir, vencer, prêmios, são palavras comuns no cotidiano desses jovens que praticam esporte ou que o vislumbram como grande possibilidade de sucesso e ascensão social.

Como qualquer atividade do ser humano, o esporte e a competição podem também ser geradores potenciais de stress se não forem adequados às necessidades e potencialidades de seus praticantes. Toda competição, qualquer que seja seu nível evidencia quatro fatores:

Confronto: entre dois ou mais indivíduos ou equipes

Demonstração: das capacidades e habilidades aprendidas e desenvolvidas nos treinamentos e ao longo da vida esportiva do atleta

Comparação: em função de um padrão próprio ou pré estabelecido. Ela pode acontecer em relação ao próprio desempenho ou ao desempenho de um colega ou adversário

Avaliação: que pode ser quantitativa (evidenciada em números e que prioriza o produto final) ou qualitativa (quando evidencia o processo e/ou a qualidade do movimento realizado).

Esses fatores poderão afetar diretamente o comportamento dos jovens, dependendo do nível de prontidão em que se encontrem. Esta prontidão inclui componentes físicos, fisiológicos, psicológicos e sociais.

Na maioria das vezes, as crianças são levadas a praticar um determinado esporte ou competir muito antes de terem atingido etapas importantes na solidificação de sua prontidão esportiva. Não são raras as vezes em que são expostas a situações complexas muito antes de atingir estágios básicos de desenvolvimento motor, exigindo-se delas comportamentos que não são adequados à sua capacidade de realização.

Um comportamento esportivo adequado e competir de maneira mais formal exige um equilíbrio dos fatores de desenvolvimento e maturação e as demandas das tarefas. Nas fases em que este equilíbrio ainda não está presente, recomenda-se que as atividades competitivas sejam suaves, sem cobranças exageradas e inadequadas para a capacidade de realização da criança. Segundo autores especialistas no assunto este equilíbrio varia de pessoa a pessoa, mas ocorrer geralmente entre os 12 e 14 anos de idade.

Quando a criança se depara com situações complexas e que excedam sua capacidade de enfrentá-las, as situações passarão a representar uma fonte de stress exagerado e que poderá trazer consequência indesejáveis para o jovem esportista, como o fracasso e a frustração. Ideal seria que a tarefa competitiva tivesse a conotação de desafio, possível de ser enfrentado com os recursos que a criança dispõe, de acordo com seu nível de desenvolvimento esportivo.

Algumas causas do stress excessivo em situações competitivas complexas para crianças:

  • Complexidade da tarefa maior que os recursos da criança
  • Pressões exercidas por adultos: pais e treinadores
  • Definição de objetivos irreais e inatingíveis
  • Comportamento dos adultos
  • Nível de expectativa exagerado – pessoal e dos outros

Neste caso, o stress manifesta-se através de alguns sintomas como:

  • Ansiedade excessiva
  • Nervosismo
  • Distúrbios do sono
  • Distúrbios de apetite
  • Preocupações com o desempenho
  • Preocupações com o resultado
  • Medo dos adversário
  • Medo de cometer erros
  • Medo de decepcionar as pessoas

O resultado desta situação pode provocar atitude de fuga, evitação e abandono da atividade, além de contribuir para baixar a auto-estima e o nível de motivação da criança.

Após o exposto resta-nos perguntar: Competir é prejudicial à criança?

E a resposta é : não.

Não, desde que sejam respeitados seu estágio de desenvolvimento, seu nível de expectativas e suas necessidades.

Não, desde que os adultos entendam a competição sob o ponto de vista da criança e não do seu ponto de vista e desde que entendam que a criança é um ser em desenvolvimento e não uma miniatura compensadora dos anseios de adultos frustrados esportivamente.

A competição faz parte da vida em qualquer segmento. A criança compete na escola, em sua casa, com seus amigos e em todas as atividades que realiza. Muitas ela faz com prazer e outras encara com preocupação. Cabe a nós, adultos, adequar as situações e proporcionar às crianças condições de competir de forma adequada e progressiva, preparando-as para atividades futuras que serão comuns em sua vida pessoal.

Projeto Virando o Jogo – SEME/SP

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Um comentário em “Esporte na infância: stress ou divertimento?

  1. Olá professor!

    Lendo este texto fiquei muito intrigado com uma passagem em especial,
    “Esta prontidão inclui componentes físicos, fisiológicos, psicológicos e sociais.”.

    Fiquei intrigado porque tenho lido o livro “Sociologia e Antropologia” de Marcel Mauss, onde ele descreve o “Homem Total” como sendo um ser primeiramente biológico, com capacidades psicológicas em um contexto social.

    E total, no sentido de que para conseguir interpretá-lo e descrevê-lo se deve considerar esses três fatores, indissociavelmente unidos.

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