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Post 400 – Colaboração mais do que especial do Prof. Jorge Olímpio Bento

Amigos do Basquetebol

Este é o post de número 400. E para comemorar este feito trago uma colaboração mais do que especial.

Trata-se de um texto do Prof. Jorge Olímpio Bento, grande referência para os profissionais da Educação Física e do Esporte e que sempre nos brinda com textos e análises maravilhosas sobre o esporte.

O professor Jorge Olímpio Bento é Diretor da Faculdade do Desporto da Universidade do Porto. É também um apaixonado pelo futebol e tem no F.C. Porto sua grande paixão.

É uma honra contar com a participação do meu amigo (e falo isto com muito orgulho) Jorge Bento no Viva o Basquetebol. Aproveitem este momento e creiam, não será o único, pois outros textos do Prof. Bento serão postados no blog futuramente.

Desporto e arte

Os antigos gregos – aqueles estranhos sujeitos ‘teóricos’, isto é, capazes de ver (orao)  o divino (theion) e superior, lançando assim os caboucos da nossa civilização e cultura, cujos descendentes se veem hoje tão mal tratados e vilipendiados pelos mandarins e mandaretes ‘mercaDdológicos’ – definiram na perfeição, com acurada visão e fundada razão: os humanos são seres ‘artísticos’ e ‘ficcionais’!

O teor e a substância da nossa Humanidade dependem do grau de incorporação e expressão de ‘arété’ (técnica, ética, estética, excelência, virtude e magnificência) nos atos e palavras, nos gestos e emoções, nas reflexões e reações, nas condutas e posturas, nos imperativos e exigências, nas causas e ideais, nos princípios e valores. Os que conseguem essa incorporação e expressão no seu caráter e comportamento são ‘aristocratas’, são os melhores e os mais virtuosos.

Dito de outro modo, a elegância ‘artística’, ética e estética não é uma atitude qualquer. É, porventura, a mais elevada, digna e sublime das atitudes e dimensões humanas. Ora isto não se adquire espontaneamente, mas através de um trabalho árduo, afincado, porfiado e suado de superação e transcendência em todas as dimensões que nos afirmam e justificam como humanos.

Somos e estamos na vida como um Homo Viator, precário, provisório, condenado ao destino da ‘formação’, em trânsito para o Homo Performator, para adquirirmos formas sempre renovadas, mais aprimoradas, ‘divinas’ e superiores. Visando combater, diminuir e sublimar a nossa natureza animal: bestialidade, crueldade, fealdade, grosseria, rudeza, violência, impulsos vis e rasteiros, ausência de controlos e inibições etc.

Neste sentido pode dizer-se que o desporto, tal como outros domínios culturais, é uma gramática da perfectibilidade e da transcendência, uma pedagogia concretizadora de uma filosofia da forma humana e do trato inter-humano. Inspira-se no ideário e serve a obrigação de contribuir para o aprimoramento dos ‘hominianos’, para que consigamos alcançar uma ‘forma humana’, a mais parecida possível com o conceito, com a noção e o ideal de Homem, tanto na arquitetura exterior dos ossos, músculos, articulações e ações, como na arquitetura interior do ânimo e da vontade, dos sentimentos, intenções e motivações.

De resto, as mãos, os pés e as pernas tentam fazer por fora aquilo que primeiro foi idealizado e feito por dentro. O mesmo é dizer que os exercícios corporais e desportivos são, na sua essência, exercícios espirituais, volitivos e anímicos; só são físicos na aparência, na maneira visível da sua realização. Parafraseando Fernando Pessoa, com o corpo de fora revelamos e esculpimos a imagem da pessoa de dentro.

Acresce que o desporto é um manancial de sonhos. E que estes são uma fonte da ilusão, ou seja, do alimento favorito da felicidade.

Ademais é através da vivência e acumulação de experiências e momentos de felicidade que conseguimos subtrair-nos à tragédia de uma existência marcada inexoravelmente pelo destino cruel e incontornável da morte. Sem aquela ajuda, o quotidiano tornar-se-ia trágico, esmagador, opressor, insuportável, irrespirável e irreal; faltar-lhe-ia o oxigénio da esperança e sublimação.

É nesta finalidade instrumental que se revê a arte. E é também por isso que o desporto tem contiguidade e cumplicidade com ela, assumindo, em suma, as funções da ‘arété’. Constitui parte, não negligenciável, do mandamento de tentar fazer da vida e do dia-a-dia um projeto de arte.

Obs: Os textos são de inteira responsabilidade de seus autores e não sofrem qualquer modificação em seu conteúdo.

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