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Mini Atletas Amestrados

A colaboração de hoje é do Prof. Dr. Marcelo Massa, docente do Curso de Ciências da Atividade Física da da Escola de Artes, Ciência e Humanidades da USP (mmassa@usp.br)

Como praticante que sou, interessado, curioso e apaixonado pelo esporte, há tempos deparo com indagações acerca da idade ideal para que uma criança inicie a se especializar em uma determinada modalidade esportiva. Desde os tempos da minha infância e adolescência essa pergunta vem se perpetuando, seja nas inquietações dos meus pais sobre a mais adequada orientação esportiva que poderiam me dar, seja na minha atividade profissional – na qual ao longo dos últimos 15 anos não me furto a responder, fundamentar e justificar aos questionamentos dos meus alunos de graduação e pós-graduação.

Contudo, é no ambiente social que convivo diariamente que, frequentemente, recebo esse tipo de questionamento, envolvido pelo contexto e/ou indagado por meus pares, amigos e familiares que possuem filhos em idades transitando entre a infância e a adolescência.

A pergunta mais recorrente é: Quando devo especializar meu filho em uma única modalidade esportiva?

Responder a esta pergunta demanda uma série de itens referentes ao contexto multifatorial de crescimento e desenvolvimento da criança, que envolve, além das características biológicas, os fatores psicológicos, sociais e motores.

Inicialmente, gosto de estabelecer um paralelo e responder afirmando que ninguém em sã consciência permitiria e especializaria seu filho aos 7, 8, 9 ou 10 anos de idade em uma única matéria da grade do Ensino Fundamental. Afinal, para que seu filho tenha capacidade de realizar escolhas futuras maduras e articuladas é preciso que o processo de aprendizagem envolva a oportunidade de se aproximar de uma série de saberes, degustando e se apropriando de disciplinas distintas que, quando encadeadas, irão compor a base da formação do indivíduo, permitindo a ele a aquisição e descoberta de diferentes habilidades e prazeres para uma interação harmoniosa com a sociedade e, sobretudo, com sua vida.

Sem essa possibilidade de formação diversificada nos anos da infância, caso nos entregássemos ao equívoco da especialização precoce, nossos filhos seriam nada mais que projetos de educação amestrada, semelhante aquilo que fazem com alguns animais que repetem modelos e habilidades predeterminadas e/ou estereotipadas. Infelizmente, para minha angústia, não é raro nos depararmos com espetáculos deploráveis na televisão, nos quais “crianças amestradas” aparecem como “mini-modelos”, “mini-apresentadores”, “mini-cantores”, “mini-matemáticos”, “mini-artistas” e por ai vai.

Nessa perspectiva, nossos filhos se tornariam “mini-atletas amestrados”, dominantes de um número insignificante de habilidades, que repercute positivamente e salta aos olhos de quem vê e analisa apenas o momento, mas que sucumbe ao tempo, demonstrando fragilidade e inconsistência psicológica, social, física e motora para sustentar o alto rendimento na fase adulta. Para tanto, basta lembrar dos animais que são criados em cativeiro e que não podem retornar ao meio natural por não terem habilidades e cultura suficiente para prevalecer no habitat.

Ou então, sem a necessidade de citar nomes, basta analisar o que tem ocorrido com diversos atletas que chegam na fase adulta com habilidades desenvolvidas em estágios elementares, apresentando possibilidades de desempenho limitadas para aquilo que se espera de um atleta profissional completo e talentoso.

Ora, uma criança especializada precocemente numa única modalidade esportiva corre exatamente o mesmo risco. Em curto prazo, tudo parece lindo e maravilhoso, pois as habilidades afloram, o desempenho logo surge e todos se entusiasmam, parecendo indicar o aparecimento do talento esportivo dentro da família. Contudo, em médio e longo prazo, o que se observa é que crianças especializadas precocemente podem contrair problemas de origem motora, apresentando um repertório motor limitado para a autonomia de construções habilidosas e desempenhos futuros, inclusive na modalidade em que foram especializadas.

Além disso, a especialização precoce gera cargas emocionais intensas para a criança, inibindo a herança mais rica da aprendizagem esportiva – que é o prazer pela prática e a descoberta das habilidades motoras, bem como de suas múltiplas e infinitas combinações. Ou seja, aos poucos a criança especializada precocemente tende a se sentir entediada pelas cobranças por gestos motores estereotipados e resultados imediatos, ficando reticente à prática, podendo gerar o processo de abandono da modalidade e inclusive a perda de um futuro talento.

Portando, os pais precisam guardar cautela quanto ao processo de iniciação e formação esportiva. Em relação ao repertório motor, antes de se pensar em qualquer especialização esportiva, existe uma seqüência de desenvolvimento motor que merece ser respeitada. Entre os 2 e 7 anos de idade a criança está na Fase Motora Fundamental e precisa ter oportunidade, instrução e encorajamento para adquirir habilidades básicas (ex. andar, correr, saltar, arremessar, receber, rebater, girar, rolar, entre outras). Em seguida, entre os 7 e 12 anos de idade, a criança deve vivenciar a Fase Motora Especializada que consiste na combinação das habilidades básicas anteriormente adquiridas.

Assim, em linhas gerais, apenas depois do refinamento e combinação das habilidades fundamentais é que a criança está pronta para escolher e ser direcionada – com base nas experiências, aptidão e prazeres descobertos – para especialização em uma única modalidade esportiva, por volta dos 12 anos de idade.

Obs: Os textos são de inteira responsabilidade de seus autores e não sofrem qualquer modificação em seu conteúdo.

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