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Prêmios para ensinagem universitária – uma tradição da Universidade Australiana.

Amigos do Basquetebol

Trago mais uma colaboração do amigo e grande Professor Jorge Dorfman Knijnik que nos traz um tema sobre o reconhecimento do trabalho de profissionais dedicados e competentes. Prêmio este que Jorge ganhou pela sua atuação docente na  School of Education at University of Western Sydney.

Parabéns ao Jorge que foi brilhar em terras Australianas.

Uma das coisas que mais me impressionou quando eu cheguei na Austrália e comecei a trabalhar na University of Western Sydney (UWS) foi a valorização dada a ensinagem[i][1] na graduação. Alguns fatores contribuíram para esta boa impressão.

Em primeiro lugar, todo docente que aqui começa a trabalhar precisa fazer um curso intitulado ‘Bases da Ensinagem Universitária’[ii][2] com um ano de duração. São cerca de cinco encontros presenciais – no qual acaba se conhecendo gente que ensina nas mais diferentes disciplinas, de teatro a biomedicina – um bocado de leituras e várias tarefas online.

Foi bom fazer o curso por muitos motivos: primeiro, aprendi um pouco a cara da ensinagem ‘local’; depois, transformei as tarefas em artigos que pretendo publicar um dia; por fim, percebi o quanto as pedagogias da ensinagem brasileira estão avançadas, os docentes brasileiros não devem nada ao ‘primeiro mundo’, pelo contrário. Bom também que por aqui a gente é ‘pago’ para fazer o curso, quer dizer, acontece no seu horário de trabalho, ou seja, ao invés de dar uma aula o docente pode fazer este curso.

A segunda coisa que me impressionou foi o jeito que eles encaram e lidam com o feedback proveniente dos alunos. Ao final de um curso, centenas de alunos[iii] [3] que fizeram aquela disciplina preenchem os tradicionais formulários de feedback, nos quais há uma avaliação quantitativa com 13 itens, e outra qualitativa, onde eles podem escrever o que quiserem.

Após uns dois meses, o docente recebe os resultados, que aparecem comparados com a média da própria faculdade, da universidade e dos anos anteriores. Algumas semanas depois, o diretor da faculdade, usando um sistema de traffic lights (sinais de transito) mostra as disciplinas que obtiveram tudo  verde (acima da média), ou alguns itens amarelos (igual a média) ou vermelhos (abaixo da média). O diretor comenta os aspectos gerais da avaliação, parabeniza os que estão ‘verdes’, e solicita que os que estão vermelhos reúnam-se com suas equipes para tentar melhorar o que não está bom. Numa boa, sem pressão.

Mas certamente, aquilo que mais me causou espécie por aqui foram… os prêmios com os quais a universidade agracia aqueles docentes que mostraram que seu trabalho foi relevante e causou um impacto positivo na vida de seus alunos ao longo de um período de tempo sustentável.

Há premiações locais – internas a cada faculdade ou universidade -, regionais e mesmo em nível nacional: anualmente, um ou uma docente é escolhido o ‘docente universitário do ano na Austrália’, e recebe o Prime-minister Award em uma noite de celebração da ensinagem universitária em Canberra (a Brasília daqui).

Neste ano, quem ganhou foi um professor da UWS, da Escola de Humanidades e Ciências Sociais. O rapaz, muito simpático por sinal, usa uma diversidade de inovações pedagógicas – tais como flashmobs! – para ensinar conceitos super-complexos, tipo a teoria do caos. Ele ganhou o prêmio local e concorreu ao nacional. Na noite comemorativa, onde foram entregues diversos prêmios para docentes que se destacaram nos mais diversos campos do saber, ele foi ao parlamento, ouviu alguns discursos, ficou surpreso ao ser chamado, recebeu seu  troféu, os cumprimentos do ministro da Educação, e ainda embolsou um chequinho de A$25.000,00 (cerca de R$ 55.000,00 – nada mau). Também virou um pouco celebridade, sendo manchete e dando entrevistas para jornais e TVs, etc – mas certamente saiu com uma grande satisfação pessoal – só quem dá aula para tanta gente sabe como é duro manter o pique da garotada ao longo do semestre.

Um docente pode receber prêmios pelas mais diversas atividades que impactem positivamente seus alunos. Pode ser pela ensinagem direta, em sala de aula, mas pode ganhar também por ter desenvolvido um recurso pedagógico bacana, um livro, um novo curriculum ou um website que ajude seus alunos.

Uma colega minha conseguiu uma verba de uma agência governamental e bolou um programa de ajuda para alunos refugiados de guerra. Existem muitos por aqui, os seis campi da UWS se localizam obviamente em Western Sydney, a região com a maior incidência de imigrantes e pobreza na Austrália.

Muitos dos alunos africanos, refugiados de guerra, chegam na universidade bem perdidos…falando e escrevendo um inglês bem limitado, e sem entender direito como o sistema por aqui funciona (é bem diferente do que a gente conhece no Brasil…); o programa da minha colega é uma rede de apoio, uma comunidade formada por alunos que estão para se formar, ou que já finalizaram seus cursos – e que também  são refugiados, ou seja, entendem o que se passa com estes primeiro-anistas. Ela acabou de ganhar um prêmio por este trabalho. Outro grupo de colegas (três professoras) ganhou um prêmio nacional pelo seu trabalho com, ora vejam só, estágios profissionalizantes! Elas trabalham em conjunto coordenando o que por aqui se chama ‘experiência profissional’.

Como eu mencionei, Western Sydney é uma região muito rica em diversidade cultural e com diversas ‘questões sociais’. Estas colegas levam seus alunos a estagiarem nas escolas mais remotas e com os alunos mais ‘desfavorecidos socialmente’ (pobres) da região; elas discutem meios de engajar estas crianças e adolescentes na escola e na vida – e estes universitários se sentem mobilizados ao perceberem o quanto um professor pode fazer a diferença na vida de seus alunos! Pois bem, o programa delas ganhou um reconhecimento nacional…(mas tiveram que dividir o cheque…!)

Enfim, os prêmios podem ser motivados por uma série de atividades que os docentes executam para beneficiar a ensinagem.  Claro, muitos prêmios são atribuídos para aqueles que têm um bom feedback de seus alunos. Mas não basta ter avaliações positivas, com notas altas e bons comentários – o docente interessado no prêmio tem que se candidatar, escrever uma cartinha de cerca de duas mil palavras, na qual ele construa um argumento que mostre os méritos do seu trabalho, e onde ele ou ela apresentem para a banca julgadora fortes  evidências, onde sejam mostradas provas que demonstrem que a sua ensinagem é significativa e vem causando um impacto positivo  junto aos seus alunos[iv] [4].

Isso é uma coisa que eu sempre senti falta no Brasil – o reconhecimento institucional para a ensinagem. Eu sempre dei muitas aulas, trabalhava feito louco, de segunda pela manhã até sexta a noite, ‘enfrentando’ centenas de aluninhos… Honestamente, poucas vezes deixei a peteca cair, sempre tentei manter uma atmosfera de ensinagem estimulante. Meus alunos reconheciam isto, sempre tive uma avaliação muito positiva por parte deles. Quando eu lecionava na saudosa Faculdade de Educação Fisica do Mackenzie, o meu mais-que-amigo-quase-irmão Marcos Merida, o diretor da época, volta e meia me chamava na sua salinha para mostrar as avaliações que os alunos faziam do meu trabalho… Ele ficava super- satisfeito, me dava uma super-força, mostrava como eu estava sempre entre os ‘top 3’ docentes daquela universidade. Mas era uma coisa pessoal dele, como o grande líder e educador entusiasta que sempre foi. Nunca houve um apoio institucional de fato para quem se sobressaísse na ensinagem.

Uma vez eu cobrei isso do Merida: “Eu acho que o reitor devia me chamar e me dar um certificado por excelência na ensinagem!”, exclamei. Meu raríssimo amigo apenas deu um sorriso semi-amarelo. Ele até podia concordar, mas sabia que isso não iria acontecer. A universidade via assim: mandou bem, não fez mais do que a obrigação; agora, foi mal em duas avaliações seguidas… cortem-lhe a cabeça!

Na USP não era diferente, fazíamos algumas ações bacanas usando o feedback dos alunos para melhorar a ensinagem. Uma vez, um professor que em anos anteriores havia recebido uma péssima avaliação, foi mencionado em reuniões e elogiado por ter melhorado muito, passando a receber o feedback estudantil mais alto e positivo entre todos professores do meu departamento. Ele então mostrou que havia entendido aquelas avaliações negativas como um desafio para se transformar profissionalmente, como docente; apresentou todos os passos que havia tomado para mudar a sua disciplina e a sua pedagogia, e estes realmente foram efetivos, os alunos estavam bem felizes, e ele satisfeito e orgulhoso do próprio trabalho! Mas ele nunca recebeu algum reconhecimento institucional por conta desta melhoria significativa.

Mais uma vez a Europa se curva ao Brasil (uops, Europa, Austrália, tudo a mesma coisa…)

Bom, todo este grande preambulo acima foi apenas para anunciar que há algumas semanas…eu recebi um dos prêmios que a UWS oferece anualmente para docentes que tiveram contribuições marcantes na ensinagem dos seus alunos!!!

Elaborar a minha candidatura foi um ‘parto’… Estava bem em dúvida… Meu diretor falou que eu devia concorrer ao prêmio, ficou me estimulando, insistindo que já estava na hora…meio relutante, aceitei – em meio a tanta gente boa, achava que minha chances eram nulas…E não é que deu certo? Em novembro houve uma cerimônia na reitoria, e a própria reitora anunciou os vencedores nas cinco categorias. Eu concorri na categoria inspiração e motivação[v][5]. A banca julgadora escreveu em minha plaquinha que “ao empregar pedagogias centradas essencialmente no aluno, Dr. Knijnik inspirou e motivou seus discentes, conseguindo desenvolver nestes atitudes positivas em relação a vida acadêmica bem como estimulando-os a pensarem de forma autonoma e independente  – tudo isso temperado com compromisso ético, paixão e bom-humor”.

Todos docentes que se candidatam, ganhando ou não, recebem uma cartinha da comissão julgadora, analisando os pontos fortes e fracos de sua candidatura. Neste feedback, um dos membros da banca escreveu que a minha filosofia pedagógica era claramente influenciada pelo ‘trabalho seminal de Paulo Freire’. Enfim, descobriram o ‘jeitinho brasileiro’ da minha ensinagem…

Fiquei super-feliz e satisfeito comigo mesmo. Não foi nada fácil. Comecei por aqui em agosto de 2009, tentando entender um sistema bem diferente… A primeira disciplina que eu coordenei e na qual lecionei era uma mistura de Artes, Dança, Saúde e Educação Física. O feedback da disciplina era em sua maior parte negativo.

Para ‘ajudar’ ainda mais aquele momento de transição profissional, logo no segundo mês, para minha sorte (!) apareceu…uma reforma curricular! Tive que reformular e desenvolver uma nova disciplina…desta vez exclusiva para Saúde e Educação Física…Acabei propondo uma coisa bem diferente, outros textos, outras vivências pedagógicas… tirei da cartola outros professores (as) os quais treinei para dar aulas comigo nesta disciplina… e que me ajudaram muito no processo… montei outro site, outras estratégias online…foi um sufoco! Aos poucos as coisas foram se acertando, os resultados do feedback aumentando… Principalmente, os alunos pareciam felizes, comentando que aprendiam enquanto se divertiam…Quer coisa melhor?

Ao final de primeiro semestre de 2011, eu recebi um email de uma aluna. Ela dizia o seguinte: “Jorge, acho que posso falar em nome de todos os seus alunos neste semestre: muito obrigado por todo o seu compromisso com a matéria e pela dedicação que você possui para com seus alunos. Eu nunca gostei tanto de uma disciplina ou me senti tão confortável e com tanto apoio como nas suas aulas. Seu jeito de ensinar, o seu jeito de escutar e entender nossas questões e problemas são qualidades admiráveis. Eu espero que um dia eu possa ser metade do educador que você já é.”

Claro que uma mensagem desta é mais do que suficiente para fazer a gente acordar e persistir na jornada educacional, apesar dos pesares. Eu costumava receber (ainda recebo) várias mensagens deste tipo dos meus queridos alunos e alunas no Brasil. Sempre gostei de dar aula e apoiar a garotada no seu desenvolvimento, e eles sempre reconheceram isso. Agora, quando este reconhecimento pessoal vem acompanhado de um suporte institucional (junto com uma ajuda no leite das crianças) a coisa fica ainda melhor.

Eu sei que este é um tema polêmico, e que muita gente não gosta de ver esta ‘competição’ assolar as salas de aula. Mas eu insisto que ninguém é forçado a participar, só concorre quem quer. O processo todo gira em torno da celebração desta importante e dura tarefa da ensinagem nos tempos atuais.

Eu acho estes prêmios de ensinagem realmente bacanas. Já está  mais do que na hora das universidades brasileiras pensarem sobre isso. Como diriam os twitteiros, #ficaadica.

NOTAS


[i] [1] Este texto foi publicado originalmente em novembro/12 no CEV (Centro Esportivo Virtual) cujo maestro Laercio CEV Pereira, gentilmente cedeu os direitos para o vivaobasquetebol. Empresto o termo ensinagem das professoras Lea das Gracas Camargo Anastasiou (com quem tive a honra de estudar na USP em 2008) e Leonis Pessate Alves, autoras de Processos de Ensinagem na Universidade, pela editora Univille. Eu realmente gostei deste neologismo combinando Aprendizagem com Ensino…quer dizer, o contrário que dá no mesmo…

[ii] [2] FULT – Foundations of University Learning and Teaching.

[iii] [3] Geralmente um docente permanente (como eu) coordena uma disciplina com centenas de alunos, no meu caso cerca de 300 por semestre; estes assistem uma aula teórica semanal de 90 minutos comigo, e depois se dividem em grupos de cerca de 25 alunos para participarem de suas ‘workshops’, aulas nas quais o conteúdo será esmiuçado, onde rolam as práticas também – normalmente  eu pego dois destes grupos e os outros  são tocados por professores sob minha diretriz.

[iv] [4]Nota importante – só concorre quem quer…eu tenho um colega que tem avaliações mil vezes melhores que as minhas, mas nunca se candidatou…ele tem uma série de restrições ideológicas a este processo…

[v] [5] Havia cinco categorias este ano: ensinagem motivadora e inspiradora; desenvolvimento de recursos pedagógicos e curriculares que comprovem liderança em um campo do saber; desenvolvimento de avaliações criativas que estimulem a autonomia do aluno; suporte a individualidade dos estudantes; atividades profissionais ou pesquisas que promoveram e influenciaram a ensinagem. Mais em http://www.uws.edu.au/learning_teaching/learning_and_teaching/awards_for_learning_and_teaching/awards_and_citations

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