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Esporte e violência

Amigos do Basquetebol

O tema “Esporte e Violência” será abordado pelo Prof. Dr.José Eduardo Costa de Oliveira, professor e pesquisador do PROASE/USP de Ribeirão Preto.

Na contemporaneidade, bem como no passado, sempre foi notório que alguns Esportes têm imbricados vários tipos de competições que envolvem força, disputa, contato físico excessivo, e ações que podem ser percebidas como violentas, a exemplo de modalidades como o MMA, o Basquetebol, o Rúgbi, o Futebol Americano, o Hóquei no Gelo, o Boxe e etc.; onde as regras pré-determinam muitas das ações dos praticantes, visando à prevenção da violência. Portanto, uma das principais características do Esporte contemporâneo, é a presença das regras.

Nesse sentido, com o objetivo de se estabelecer as analogias entre estes dois fenômenos sociais – Esporte & Violência – ressaltamos que, ainda que existam grandes dificuldades para se definir o que se nomeia de Violência no Esporte, bem como que existam poucos elementos que a vinculem, diretamente, com o fenômeno esportivo (ao menos aqueles relacionados à sua gênese), que a Violência no Esporte pode ser entendida como o uso da força física e/ou do constrangimento psíquico para obrigar alguém a agir de modo contrário à sua natureza e ao seu ser, dentro do ambiente esportivo, perpetrado, quer seja pelos praticantes ou pelos espectadores.

A violência, enquanto fenômeno do campo esportivo pode ser considerada como um processo social-cultural complexo, no qual intervêm fatores estruturais, ideológicos, financeiros e culturais, onde este fenômeno também pode ser caracterizado quando um, ou vários atores agem de forma direta ou indireta, maciça ou espaçadamente, causando incursões a uma ou mais pessoas, mesmo que em graus variáveis em sua integridade física, moral, material ou em suas participações simbólicas e culturais.

O contexto histórico da violência esportiva se traduz a reboque das sangrentas batalhas no Coliseu da Roma Antiga, que se iniciaram em função da política dos Imperadores Romanos, que frente ao descontentamento dos cidadãos para com a realidade social da época, viram na – Política do Pão e Circo – uma maneira vil de acalmar a população, servindo-lhes o sangue dos gladiadores, enquanto espetáculo esportivo, e, portanto – entretenimento – acompanhado de – comida – nos eventos esportivos. Verdadeira gênese da violência no esporte, que também absorvia e retransmitia a violência social da época, através da ratificação da subserviência da população, frente ao domínio do Estado.

Neste mesmo cenário, a violência esportiva também se destaca através das – torcidas organizadas – que configuram-se como a principal mola propulsora dos eventos violentos da atualidade, particularmente, quando relacionada aos episódios futebolísticos; como pode ser observado naquilo que fora denominado de comportamento – Hooligan. Quando ao final dos certames esportivos, uma verdadeira batalha é comumente instaurada entre as torcidas organizadas, culminando em comportamentos violentos para com os torcedores de outras equipes, bem como gerando situações de violência e depredação do patrimônio público e privado.

A palavra Hooligan começou a ser associada com a violência nos esportes, em especial a partir da década de 1960 no Reino Unido, com o “Hooliganismo” no Futebol, onde cita-se como a maior demonstração de violência, a tragédia do Estádio do Heysel, na Bélgica, durante a final da Taça dos Campeões Europeus de 1985, entre o Liverpool da Inglaterra e a Juventus da Itália. O episódio resultou em 38 mortos e um número indeterminado de feridos. Os hooligans ingleses foram responsabilizados pelo incidente, o que resultou na proibição das equipes britânicas participarem em competições europeias por um período de cinco anos.

Existem várias teorias sobre a origem da palavra “Hooligan “. O Compact Oxford English Dictionary afirma que ela pode ter origem do sobrenome de uma família fictícia Rowdy irlandesa em uma canção de music hall da década de 1890. Clarence Rooks, em seu livro de 1899, Hooligan Nights, alegou que a palavra veio de Patrick Hoolihan (ou Hooligan), um fanfarrão e ladrão irlandês que vivia no bairro londrino de Southwark. Outro escritor, Earnest Weekley, escreveu em seu livro de 1912, Romance of Words, que os Hooligans originais eram uma família de espírito irlandês com esse nome, cujo comportamento animou a monotonia da vida em Southwark por cerca de quatorze anos.

Também foram feitas referências a uma família rural irlandesa do século XIX com o sobrenome Houlihan, que eram conhecidos por seu estilo de vida selvagem, que depois evoluiu o nome para O’Holohan, de acordo com as tradições de famílias irlandesas do O’ para começar o nome. Outra teoria é que o termo vem de uma gangue de rua em Islington chamada Hooley. Ainda há outra teoria em que o termo é baseado em uma palavra irlandesa, houlie, o que significa um selvagem ou espírito festivo.

No entanto, é noutra possibilidade de violência, onde suas manifestações são predominantemente comportamentais, variando de agressões verbais, pelas ações das pessoas, ou ainda pela discriminação racial, sexual ou religiosa que existe na sociedade, e que agora emanou para os campos desportivos, que mais se tem observado, quando o contexto analisado se relaciona com o Esporte, ou seja: a violência simbólica. Particularmente quando remetida aos casos de racismo, onde o relatório das Nações Unidas de 2005 expressou preocupação pelo seu aumento no Futebol; um esporte que pode ser uma ferramenta útil para o desenvolvimento e a paz internacional, mas, ao contrário disto, tem potencializado esses comportamentos sociais indesejados.

A violência simbólica é definida quando ela trata de se manifestar através de ações abstratas de superioridade, de uma pessoa ou grupo sobre o outro.

O aumento da violência e dos incidentes abertamente racistas estão ilustrados não só pelas ações de alguns simpatizantes sobre discriminação e xenofobia, mas, também, são constatadas em comentários e ações de treinadores de clubes que minimizam ou legitimam esses casos.

O fenômeno do racismo no Esporte, por exemplo, é caracterizado, em geral, por atitudes inconsequentes, desrespeitosas e hostis para com outro ser humano, geralmente de cor, raça, religião e etc., diferente a do agressor, que pode se manifestar na forma de agressões físicas ou psicológica, principalmente.

Cita-se o exemplo recente do amistoso da Seleção Brasileira de Futebol em 26/03/2011, contra a seleção Irlandesa, onde o jogador Neymar Jr., ao ser substituído no final do segundo tempo, recebeu uma banana atirada pelos torcedores irlandeses.

Por fim, é fato que urge a importância de se empreender ações que possam gerar subsídios para novas análises e aprofundamento da temática da Violência no Esporte, pois, observamos o fato dela se manifestar no interior das arenas desportivas e no entorno delas, perfazer uma reprodução da violência instaurada nas sociedades e que foi construída ao longo de décadas de subserviência da população ao poder do Estado. Portanto, tem relações diretas com o poder.

Outra conclusão passível de ser construída é o fato de quão se tornou comum, contemporaneamente, atos de discriminação racial, que apesar de não serem concretos o suficiente para serem enquadrados como crime, pois, segundo algumas autoridades o racismo é muito complexo, se manifesta de diversas formas e parece estar internalizado no comportamento e no cotidiano das pessoas, particularmente no ambiente esportivo, externalizado desde uma simples piada, nos apelidos, na chacota, chegando até as manifestações de constrangimento e nas agressões físicas e verbais aos negros, homossexuais, mulheres, árabes, judeus e nos portadores de necessidades especiais, onde enfatizamos que o Esporte é uma importante ferramenta de enfrentamento desta problemática, mas, que deve-se considerar a polissemia da questão.

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