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Em época de Copa tem de tudo: palpites, implicações políticas, filosofia barata e até basquete

Amigos do Basquetebol

Por mais que alguns continuem a detestar, a Copa está aí. E com ele uma avalanche de assuntos relacionados ao evento e outra avalanche de assuntos que nada têm a ver com a Copa mas que muitos insistem em debitar na sua conta.

Um deles é a relação da Copa com nossa política. Todos sabem que nesta Copa foram cometidos muitos absurdos financeiros para a construção de estádios que, em sua maioria, não servirão para nada. Mas enganam-se aqueles (ou simplesmente ignoram) que querem fazer da Copa a grande vilã financeira do nosso país. Os estádios foram super faturado? Sim e muito. Mas e as obras da transposição do São Francisco? E a compra da refinaria de Pasadena? E o roubo do Mensalão? O que eles têm a ver com a Copa? Aconteceram muito antes dela surgir. Que fique claro: não sou a favor desses desmandos cometidos em nome do evento. Só acho injusto condenar a copa como a grande vilã dos absurdos cometidos neste país.

Outro assunto é a questão da relação dos resultados do Brasil na Copa com a melhora ou a piora das condições da educação, saúde, segurança e infra-estrutura do país. Nos meus 60 anos vivi, efetivamente, 11 copas antes desta. E, sinceramente, nunca vi o país melhorar ou piorar em função da Copa e dos resultados do Brasil. Neste período ganhamos 3 e perdemos 8. E daí? O que mudou? E a resposta é: nada. Isto porque no meu entender o problema não é a Copa ou o sucesso do Brasil no evento. O problema é que, enquanto tivermos políticos inúteis, desonestos e que não estão nem aí para a situação do país, o Brasil poderá ganhar todas as Copas que disputar, nada mudará.

E aí vem a velha ladainha que o futebol é o grande mal do país e que prejudica todos os esportes. Na minha opinião, ledo engano. Infelizmente, vivemos a monocultura do futebol. E isto não vai mudar. E como não vai mudar não adianta querer remar contra a maré. Temos que usar da inteligência para tentar alavancar os outros esportes, apesar do futebol. Sei que muitos serão contrários a esta minha posição, mas é a realidade.E é uma realidade mundial. Acontece na maioria dos países. Tanto é verdade que a própria FIBA já alterou as datas dos próximos mundiais para fugir da concorrência do futebol.

E no meio disto tudo temos até o basquetebol. Nossa seleção começa os preparativos para o Sulamericano e, posteriormente, para a Copa do Mundo. Temos que torcer para que nossos atletas (masculino e feminino) estejam muito bem preparados para enfrentar essas pedreiras. Que eles possam nos representar dignamente (não necessariamente com o título, pois isto é uma tarefa muito árdua) para que o basquetebol venha a recuperar seu prestígio e ocupar um pedacinho a mais na vida dos brasileiros.

Independentemente do futebol.

 

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Em época de Copa do Mundo……

Amigos do Basquetebol

Em época de Copa do Mundo é difícil encontrar assunto para postar. E também é difícil encontrar leitores que estão muito mais preocupados com nossa seleção. Nada mais justo e compreensível.

Então vamos tentar unir as duas coisas: Copa do Mundo e Basquetebol, falando de curiosidades que unem esses dois assuntos.

Você sabia que:

– Desde 1970 A Copa do Mundo de Futebol e o Mundial de Basquete acontecem sempre no mesmo ano? Mas a partir da próxima Copa do Mundo de Basquetebol as coisas vão mudar. O torneio do basquetebol acontecerá somente em 2019 para fugir da concorrência do basquetebol.

-Nunca um país vencedor no futebol foi vencedor também no basquetebol? Vejam a relação dos campeões (Futebol – Basquetebol):

1970: Brasil – Yugoslávia; 1974: Alemanha – União Soviética; 1978: Argentina – Yugoslávia; 1982: Itália – União Soviética; 1986: Argentina – Estados Unidos; 1990: Alemanha – Yugoslávia; 1994: Brasil – Estados Unidos; 1998: França – Yugoslávia; 2002: Brasil – Yugoslávia; 2006: Itália – Espanha; 2010: Espanha – Estados Unidos. E em 2014 como será?

– Que em 1978 o Brasil foi terceiro lugar em ambos os Campeonatos?

– Que nesse período os títulos mundiais no futebol foram conquistados pelo Brasil (3), Itália, Alemanha e Argentina (2), Espanha e França (1)? E no basquetebol foram 5 títulos da Yugoslávia, 3 dos Estados Unidos, dois da União Soviética e um da Espanha?

Enfim, essas são curiosidades apenas para não perder o costume de escrever, pois eu também estou envolvido nesse clima de Copa. Divirtam-se, torçam pelo Brasil. Mas eu aposto na Alemanha (futebol) e Estados Unidos (basquetebol).

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LIga ACB: mais um duelo entre Real Madrid e Barcelona

Amigos do Basquetebol

Para aqueles que já estão cansados da overdose de futebol amanhã teremos um prato cheio.

Começam as finais da Liga ACB, um dos melhores campeonato de clubes de todo o mundo. E novamente Real Madrid e Barcelona estarão se confrontando.

Na temporada regular o Real Madrid terminou em primeiro lugar com 32 V e 2D. Já o Barcelona terminou em terceiro com 27 V e 7 D. No confronto entre as duas equipes um empate. No primeiro turno deu Real Madrid (98×84) e no segundo deu Barcelona (86×75).

No último confronto, válido pela semifinal da Euroliga o Real Madrid massacrou o time catalão – 100×62- resultado que ninguém poderia imaginar.

As finais começarão amanhã em Madrid (19/06 – quinta feira – 21h30 – horário local). O segundo jogo também será em Madrid (sábado – 22h00 horário local) e a terceira partida será em Barcelona na terça, dia 24 – 19h00 horário local).

O quarto jogo, se necessário, será em Barcelona na quinta (26 – 19h15 – horário local) e o quinto, em Madrid, no sábado (28 – 22h00 horário local).

Comparação entre as equipes

Ataque: Real Madrid – 88,3 (1o.) Barcelona – 81,9 (3o.)

Defesa: Real Madrid – 72,9 (5o.) Barcelona – 70,1 (1o.)

Rebotes: Real Madrid – 36,0 (5o.) Barcelona – 37,2 (3o.)

Assists: Real Madrid – 18,3 (1o.) Barcelona – 17,9 (3o.)

3 pontos: Real Madrid – 37,2% (5o.) Barcelona – 37% (6o.)

2 pontos: Real Madrid – 57,1% (1o.) Barcelona – 56,5% (2o.)

L.Livres: Real Madrid – 80,1% (2o.) Barcelona – 73,1% (16o.)

Recuperadas: Real Madrid – 10,1 (1o.) Barcelona – 7,2 (12o.)

Perdidas: Real Madrid – 12,3 (6o.) Barcelona – 11,8 (3o.)

Eficiência: Real Madrid – 109,8 (1o.) Barcelona – 97,9 (3o.)

Destaques individuais

Cestinhas: Real Madrid (Lllul – 14,2) Barcelona (Tomic – 10,3)

Rebotes: Real Madrid (Mirotic – 5,5) Barcelona (Tomic – 6,7)

Assists: Real Madrid (Sérgio Rodrigues – 6,1) Barcelona (Huertas – 4,3)

Eficiência: Real Madrid (Rudy Fernandez – 16,6) Barcelona (Tomic – 15,5)

Os números podem sugerir um favoritismo do Real Madrid. Mas como já diziam os grandes filósofos esportivos: Clássico é clássico e vice-versa, só podemos esperar por grandes jogos.

 

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Euroliga 2014: a festa do Final Four

Amigos do Basquetebol

Com algum atraso, justificável pelo fato de ter publicado minhas homenagens ao título mundial conquistado por nossas meninas em 1994, escrevo sobre minha experiência no Final Four da Euroliga realizado em Milão no mês de maio.

Foi realmente uma momento marcante na minha vida de “basqueteiro”. Aqueles que me acompanham sabem da minha admiração pelo basquetebol europeu. E nada melhor do que contemplar esta admiração participando do momento mais importante da Euroliga.

O Final Four foi realizado no Mediolanum Fórum de Milão, ginásio com capacidade para 15 mil espectadores. E os 15 mil lugares foram tomados por uma torcida vibrante, com destaque para os aficionados do Maccabi, que deram um show durante as partidas e, especialmente, na final brilhantemente vencida pelos Israelenses.

Os jogos foram muito equilibrados, com exceção daquele pelo qual tinha a maior expectativa – Real Madrid x Barcelona – vencido pelo time madrilenho por quase 40 pontos. Na outra semifinal – Maccabi x CSKA Moscow – deram um show de emoção e a equipe do Maccabi, depois de perder o jogo todo (chegando a 15 pontos de diferença) venceu em uma bola roubada pelo espetacular Tyrese Rice, numa bobeada do russo Fridzon (sim aquele que converteu aquele bola de 3, contra o Brasil nos Jogos Olímpicos de Londres – dizem que foi praga de brasileiro).

A disputa de terceiro lugar, como sempre acontece teve um sabor de comida sem sal. E o Barcelona, pelo menos recuperou-se do vexame da rodada anterior.

Aí veio a final. Um verdadeiro show antes do jogo. A apresentação das equipes foi arrepiante. Os intervalos de tempo preenchidos pelas belíssimas dançarinas russas, ucranianas e lituanas e um coral maravilhoso no intervalo.

E o jogo! Que jogo! Equilibradíssimo. E novamente o Maccabi mostrou sua força coletiva e sua consistência vencendo uma equipe fantástica que possui dois gênios do basquetebol: Rudy Fernandez e Sérgio Rodriguez. Mas o Maccabi tinha Rice (MVP do torneio), Hickman (armador sensacional) e Baby Shaq (uma parede humana).

A festa foi maravilhosa. Os torcedores do Maccabi que já tinham invadido Milão foram à loucura. A volta para o hotel foi em um metrô apinhado de camisas amarelas e com muita vibração.

Além de tudo isto, o Final Four montou uma Fan Fest na praça do Duommo de Milão onde milhares de pessoas puderam desfrutar de inúmeras atrações relacionadas ao basquetebol: atividades para a criançada, torneios 3×3, campeonatos de arremessos e novamente as belíssimas dançarinas russas, ucranianas e lituanas.

Enfim, foi mais um momento marcante de minha vida “basqueteira”: 3 mundiais masculinos, 2 mundiais femininos, 3 Jogos Olímpicos e agora o Final Four da Euro. Mas não paro aqui. Em agosto/setembro tem Copa do Mundo na Espanha. E lá estarei para vibrar com o basquetebol e quem sabe, com uma grande atuação de nossa seleção.

Fórum Mediolanum Milão
Fórum Mediolanum Milão
A vibrante torcida do Maccabi
A vibrante torcida do Maccabi

 

As dançarinas na Fan Fest
As dançarinas do CSKA na Fan Fest
As crianças na Fan Fest
As crianças na Fan Fest
A festa dos campeões
A festa dos campeões

 

 

 

 

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20 anos do Mundial Feminino – 3

Amigos do Basquetebol

Encerrando a série sobre a conquista do Mundial Feminino, na Austrália, em 1994, agora quem conta um pouco sobre essa maravilhosa conquista é o professor Hermes Balbino, preparador físico da Seleção Campeã Mundial.

“Hoje, após os 20 anos da conquista do Mundial da Austrália, muitas recordações daquela conquista preenchem minhas experiências atuais como um esportista. Tenho como um dos pontos principais da memória daquele evento o propósito inicial para estar no Campeonato, que era melhorar o resultado conquistado na Malásia.

O objetivo era ir para a fase dos oito melhores. Nossa equipe vinha de um décimo lugar no Mundial em 1990, e as lembranças daquela tímida participação sufocavam uma participação competitiva para a Austrália. Era o que eu sentia no início dos treinamentos. Percebia também que a pressão para classificação olímpica e a frustração pelos resultados obtidos pela equipe para os Jogos de Seul/88 e Barcelona/92, exigiam cada vez mais do grupo, provocando intimidação.

A Mídia depositava esperanças e projetava resultados para a equipe que tinha como líderes Paula e Hortência, que eram indiretamente cobradas e pressionadas a fazer algo a mais do que participar e competir em qualquer disputa da seleção feminina de basquetebol. O desejo implícito de muitos era por vitória expressiva traduzida em medalha, pódio e a ocupação do lugar de heroínas para uma pátria que pedia por resultados esportivos.

O que se esperar de uma equipe que lutava contra as tempestades provocadas pela sua intensa vontade de vencer? Talvez a vontade estivesse indo para o lugar errado. E creio que o Prof. Waldir Pagan, de presença e atitudes sábias, fez com que a grande vontade de todos os responsáveis pelo desempenho da equipe, tanto atletas como a comissão técnica, começasse a ir para o lugar certo. Lembro-me de suas afirmativas recheadas de motivação e energia: “Vamos fazer tudo para essas meninas jogarem o melhor delas”. O resultado veio em 12 de junho de 1994.

Aqui temos um ponto: a implantação de uma conduta que se mostrou ser vencedora, que incluiu uma atitude simples e muito significativa. Lembro-me de que em outras competições, a pressão pelo resultado fazia com que a equipe jogasse o tempo todo tensa, com preocupação excessiva pela vitória que garantiria talvez os patrocínios e o emprego nos clubes quando voltássemos para o Brasil.

Jogávamos contra um adversário, mas parecia que, em nossa percepção, todos estavam na quadra contra o Brasil, e essa sensação nos perseguia até a última participação, independentemente da cor da medalha que estivesse em disputa.

Precisávamos mudar isso. Juntos decidimos focar todas as atitudes, conversas, informações, no próximo adversário que estivesse na “ordem do dia”. Era como se fôssemos construir um muro, tijolo a tijolo. Nada de pensar no tijolo futuro. Somente nos importava o jogo da vez. Vejo isso hoje como altamente positivo, pois diminuiu a pressão na participação do campeonato, e focou muito o grupo todo para produzir ações para o que estivesse em questão, que era solucionar o atual problema, vencer o jogo do aqui e agora.

Jogo a jogo, fazíamos tudo para poder dar certo a nossa melhor participação, que em primeiro momento era ficar entre os oito melhores, ou seja, passar da primeira fase. Sentimos o efeito dessa conduta após as derrotas que tivemos contra a Eslováquia no jogo de abertura e contra a China na segunda fase, pois o grupo não se abateu com os resultados e focou as ações para o jogo seguinte. Era ganhar a partida seguinte e estaríamos vivos no campeonato.

O que não funcionou foi corrigido pelas orientações do Miguel e do Sergio, e o que trazia resultados era reforçado e validado. Havíamos aprendido uma dura lição na Malásia. A sensação de cair fora deste grupo dos oito melhores já havíamos experimentado em 1990. Disputar os lugares da outra metade dos oito participantes, do nono ao décimo sexto lugar é viver uma sensação terrível; é como ficar de fora de uma grande festa, mesmo estando vestido para ela. Penso que estar nesta disputa, que muitos chamam de consolação, serve para fazer a promessa de se treinar muito para o próximo campeonato e nunca mais passar por este tipo de situação. Aprendemos pela dor e valeu.

Na abertura da segunda fase jogamos uma partida crucial contra Cuba. Aquele jogo nos deu a auto-estima de que necessitávamos. Lembro-me da partida espetacular que fizemos, pois vencemos de 20 pontos um dos mais temidos times do campeonato. As cubanas jogavam com muito vigor, e não se intimidavam contra ninguém, faziam um jogo de alto risco. Se desse certo, iam em frente; se não, era algo como o que aconteceu: afundaram abraçadas no seu jogo de força física e velocidade. Jogamos com volúpia de vencedores, e ali começou a se consolidar uma participação que já era muito mais competitiva, e que se mostrava na intensidade dos rebotes, contra-ataques, tiros de três pontos e dos ‘tocos’ espetaculares que demos nas cubanas. Jogão! Seguimos em frente, e fomos derrotados para a China, aparentemente prontas para uma vitória na final. Aparentemente.

E veio a alta tensão. O jogo contra a Espanha, que nos colocaria entre os quatro melhores, foi talvez a mais áspera lembrança deste Campeonato. As coisas não andavam, todos estavam muito desgastados pela intensidade do campeonato, que tinha 8 jogos em 10 dias, no mais alto nível. Embora fosse a Espanha um adversário que não tinha presença do tamanho de outras equipes que foram para vencer na Austrália, também acreditou que vencer o Brasil significava um lugar entre os quatro melhores do mundo.

Esse jogo ficou indefinido até que faltasse 1’21’’ para acabar. Numa seqüência muito feliz, nossa equipe deixou para resolver todas as situações em rebotes, contra-ataques e ‘desopilar’ a angústia que se construíra desde a Malásia para experimentar a liberdade de participar de uma semi-final de Campeonato do Mundo. Para aquela geração experiente mesclada pela juventude das meninas que vinham para injetar combustível na experiência de Paula e Hortência, magníficas jogadoras reconhecidas pelo mundo, ganhar aquele jogo seria uma festa única, que nos tirava do lado de fora e nos colocava dentro da pista de dança.

Agora sim poderíamos dizer o que era disputar um pódio de Mundial, ou seja, jogar para vencer um Campeonato do Mundo. A vitória contra a Espanha foi isso, entrar para o seleto clube de candidatos ao pódio, e a equipe persistiu até o cronômetro zerar. Palmas para o espírito guerreiro de todo o grupo, que nos alimentou segundo a segundo neste jogo.

Vejo hoje que a semifinal contra as americanas nos provocava medo, mas um medo positivo, que anunciava sim uma ameaça, porém uma ameaça que servia de alerta. Essa apreensão nos levou a escolher estratégias regadas pelo compromisso com o jogo da autonomia e da liberdade – afinal, o que tínhamos a perder? Todos deram mais do que o seu melhor. Aqui até balançar a toalha no banco valia ponto.

A equipe se soltou pelo tratamento que nos foi dado pelas americanas, e que talvez fosse dado também às outras equipes. Estávamos no mesmo hotel, mas parecia que não estávamos lá. Ninguém, até aquela hora, nos olhava com respeito, mas sim com um certo desdém. Quem acreditava que um décimo lugar em 1990 pudesse disputar algo que não uma mera participação um pouco melhor em 1994? É claro que fazer final, para alguns observadores internacionais, nem pensar!

Bem, e veio o jogo tão esperado. Interessante o comportamento de nossa equipe, pois aquele jogo significava passar para a final, ou seja, era um jogo só de uma única fase. E nossa equipe se comportou como quem tomava conta da quadra, desde o primeiro ataque até o zero do cronômetro. Em todos os momentos estivemos à frente, e as adversárias que até aquele jogo não tinham notado nossa presença, viram que em lagoa silenciosa também tem crocodilo nadando. Afinal, estávamos na Austrália!

Jogo final contra a China. Creio que todos nós acreditávamos agora que era possível construir a vitória, mesmo tendo perdido para a China em um momento anterior e não muito distante no campeonato. A pivô gigante Haixia já não assustava como há quatro dias antes. Ela deve se lembrar até agora do maravilhoso ‘toco’ que ganhou de nossa defesa, que não se intimidou com o currículo da chinesa.

A equipe expressava a convicção pela crença de que com trabalho e competência se chega às conquistas desejadas, e estar em primeiro era questão de trabalhar bem, e jogar no melhor que cada uma pudesse fazer para a equipe. Do lado de fora, fazíamos o trabalho que a Comissão Técnica deve fazer, lembrando novamente o lema do Prof. Waldir Pagan: “Vamos fazer de tudo para essas meninas jogarem o melhor delas”. E assim foi feito.

O jogo foi acontecendo e a precisão dos passes, a solidariedade nas assistências, a beleza dos arremessos foi construindo um placar que se iluminava em nosso favor. A confiança pelo bom trabalho se traduziu na merecida vitória. Em todos os momentos fomos fortes, unidos, objetivos, e competentes. Jogamos de verde e amarelo. Um forte sentimento de cooperação e solidariedade, além da confiança no trabalho de equipe brilhava na face de cada um que era membro daquele grupo. Creio que foi um dos momentos mais brilhantes da seleção de basquetebol feminino do Brasil, não só pela magnitude do resultado conquistado, como também pelo empenho que todas tiveram em jogar para a equipe, do trabalho que todos fizeram para que tomássemos para nós o melhor resultado que seria fruto da essência do trabalho coletivo, como é o fundamento maior do basquetebol. Hoje, olhando à distância de vinte anos, noto que, a cada saída para o jogo do dia, esse propósito que fez com que todos abandonassem o ego no hotel, para formarmos um “Eu Equipe” dentro da quadra.

E nós recebemos delas um prêmio maior ainda do que o primeiro lugar. Aquelas moças nos ensinaram que, mesmo sendo cada uma delas excelentes jogadoras, agindo como equipe eram melhores ainda. Essa foi a força que surpreendeu e venceu em 1994 o Campeonato Mundial Feminino de Basquete na Austrália.

Gratidão a todos que cooperaram e estiveram disponíveis para esta conquista.”

Hermes Balbino

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20 anos do Mundial Feminino – 2

Amigos do Basquetebol

Neste segundo post sobre a conquista do Campeonato Mundial Feminino, realizado na Austrália em 1994, trago a colaboração do Professor Sérgio Maroneze, assistente técnico da seleção feminina naquele campeonato.

“O Campeonato Mundial da Austrália, em 1994, começou antes para nós da comissão técnica. Começou em 1992, quando trabalhamos – Waldir Pagan, Miguel Angelo da Luz, Hermes Balbino e eu – juntos pela primeira vez numa convocação da equipe juvenil para o Campeonato sul americano no Chile. Foi aí que conhecemos verdadeiramente muitas  daquelas que, ao lado das estrelas já então reconhecidas, fariam o sonho se tornar tangível para 1994. Meninas com potencial, com talento, mas ainda assim, meninas nas quais colocar as fichas podia ser assinar a sentença de saída dos cargos a nós confiados pelo então presidente da CBB, senhor Renato Brito Cunha.

 Naquela época a CBB pagava tão somente uma ajuda de custo por competição e como eu estava nas três comissões – cadetes como técnico e juvenil e adulto como assistente – eu fazia o papel de um técnico exclusivo de hoje, trabalhando 365 dias por ano, mas recebendo somente enquanto a convocação estava valendo…

Foi um tempo muito difícil, financeiramente falando. Pouca gente sabe, mas para ficar à serviço das seleções naquele período entre 1992 e 1996, fui à falência total, tendo me desfeito de todo meu patrimônio pessoal. Faria tudo oura vez, é claro, mas são outros tempos agora e quero acreditar que as coisas mudaram para melhor.

 Em se tratando de amistosos, nossa preparação para o Mundial foi trágica. Jogamos contra Cuba em diversos desafios pelo nordeste – condições de piso de quadra inadequados, temperaturas altíssimas, umidade do ar e pressão atmosféricas totalmente diferentes daquelas que iríamos encontrar na Austrália – e também contra a Eslovênia (uma equipe muito inferior à nossa). Antes disso jogamos contra equipes femininas adultas e equipes masculinas de categorias menores de São Paulo.

 Tínhamos que esconder as opções defensivas – minha paixão profissional desde sempre e onde eu atuava com liberdade nos treinos – do presidente da CBB, que só admitia uma coisa, batizada por ele de “defesa individual em massa”. Quando ele se fazia presente, era isso que treinávamos…

Vou achar natural se muitos não entenderem por estarmos acuados, mas o entorno era o seguinte: Miguel e eu tínhamos 34 e 32 anos, respectivamente. Fomos criticados (especialmente o Miguel que vinha do masculino) por 99% dos técnicos, imprensa especializada e aspones de plantão. O ambiente ao nosso redor era extremamente hostil, nesse sentido, e o senhor Brito Cunha nos intimidava profundamente com seu destempero. Aí tomamos a decisão de não levar a Marta Sobral e o mundo quase veio abaixo… Aff…

 Chegamos na Austrália via Melbourne com antecedência para um torneio contra as seleções juvenis “A” e “B” da própria Austrália. O “jetleg” do fuso horário foi otimamente administrado pelo Hermes, que nos levou para treinar assim que pusemos os pés no hotel. No tal torneio as nossas meninas apanharam muito (com a conivência explícita da arbitragem australiana) e perdemos quase todos os jogos. De bom foi a temperatura que tiramos da intensidade de jogo das atletas locais. Mesmo tendo trabalhado numa universidade americana eu nunca tinha presenciado uma coisa igual; impressionante seria a descrição mais simplista do que presenciamos lá.

 Desembarcamos em Lauceston (Tasmânia) para a primeira fase, onde de cada grupo de quatro só sairiam dois para as oitavas. O Waldir descobriu que o regulamento não permitiria que os tênis das meninas fossem de cores diferentes. Ele então mandou comprar tinta preta, sentou no chão no vão da escada e pintou todos os calçados… Devíamos ter fotografado isso…

No primeiro jogo ganhamos de Taipe por quase 30 pontos de diferença com placar centenário. Depois tropeçamos contra a Eslováquia (-11) e nossa sobrevivência foi decidida contra a Polônia (+10). Cabe lembrar que nessa época os jogos das fases iniciais eram todos os dias, sem folga. Três jogos em três dias. Se houvesse problemas, arrumar a casa era um pouco mais complicado então. Bom, passamos dessa e estávamos entre as oito melhores equipes do mundo!

 No hotel em Sidney a imprensa internacional não nos procurava e as outras seleções (exceção feita a Cuba) nos tratavam como seres invisíveis e desprezíveis; era engraçado isso, rsrsrs…

Três dias depois começou outra rodada de três jogos em três dias. Primeiro contra Cuba (+20), depois contra China (- 07) e por fim contra a Espanha de uma Blanca Ares inspiradíssima… (+ 05). Ao meu ver o jogo mais sofrido da campanha foi esse, não a semifinal ou a final. Passamos outra vez. Estávamos entre as quatro melhores equipes do mundo!

 Dois dias depois foi a semifinal contra os Estados Unidos – um timaço – e tenho orgulho de escrever que elas não viram a cor da bola. Levaram um baile, técnico, tático e estratégico. Placar final 110 x 107 que não traduz o jogo de verdade, pois ditamos o ritmo desde o início até o fim. Nossa… ganhamos delas; nos tornamos uma das duas melhores equipes do mundo!

No dia seguinte (isso mesmo, no dia 12 de junho, um dia depois da semifinal contra os EUA), jogamos a final do Campeonato Mundial da Austrália.

Antes do jogo a coisa que eu mais me lembro é que eu e o Miga não dormíamos há séculos. Estabelecemos uma rotina de estudar os jogos dos adversários com o vídeo cassete (!) nas madrugadas de um dia para o outro e decidíamos o plano de jogo e a preleção do dia seguinte com base nisso. Na medida que a receita foi dando certo, ficávamos cada vez mais tempo e, nessa ocasião em especial, quase amanhecemos dentro de uma salinha bolorenta com tapete vermelho e sem ventilação num dos andares do hotel…

Enfim, decidimos que a chave do jogo estaria na marcação da Haixia e que correríamos o risco de perder o jogo lá fora, mas iríamos dificultar a bola para ela mesmo assim. Sugiro que todos que ainda não assistiram a esse jogo o façam agora, pois será mais fácil entender o que aconteceu lá. As meninas estavam confiantes e inspiradas.

Ganhamos o oitavo jogo e nos tornamos a melhor equipe do mundo! Que orgulho!

Aquela medalha era de muitos lugares e de muitas pessoas. Sorocaba, Piracicaba, Jundiaí, Santo André, Catanduva, Bauru, São Caetano, São Bernardo, Presidente Prudente, Presidente Wenceslau, Araçatuba e tantas outras cidades e profissionais que por aí passaram e que construíram os alicerces dessa conquista.”

Sérgio Maroneze

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20 anos do Mundial Feminino – 1

Amigos do Basquetebol

Depois de alguns dias ausente, volto ao “trabalho”.

E volto em grande estilo, comemorando uma das maiores conquistas do nosso basquetebol: a conquista do Mundial Feminino em 1994.

Lembrando que o referido campeonato aconteceu na Austrália, de 2 a 12 de junho, e que o Brasil vinha de um sétimo lugar nos Jogos Olímpicos de Barcelona (sua primeira participação em Jogos Olímpicos) e de mudanças na comissão técnica com a chegada de Miguel Ângelo da Luz, Sérgio Maroneze (assistente), Hermes Balbino (preparador físico) e Waldir Pagan (supervisor).

A campanha nos Jogos Olímpicos não colocava o Brasil entre os favoritos, apesar de contar com atletas com Paula e Hortência, que haviam sido os destaques do Pan Americano de Cuba, em 1991. A equipe também contava com Adriana Santos, Alessandra, Janeth, Leila, Ruth, Cintia Tuiú, Simone Pontello, Dalila, Helen e Roseli.

O Brasil fez parte do grupo C, na fase  de classificação e enfrentou Taipei (112-83), Eslováquia (88-99) e Polônia (87-77).

O Grupo A era composto por Espanha, Nova Zelândia, Estados Unidos e Korea.

O Grupo B tinha Cuba, França, Kenia e Canadá.

E o Grupo D: China, Itália, Austrália e Japão.

Nas quartas de finais foram dois grupos:

A – Estados Unidos, Austrália, Eslováquia e Canadá.

B – Brasil, China, Cuba e Espanha. Foram duas vitórias contra Cuba (111-91) e Espanha (92-87) e derrota contra a China (90-97).

Classificado como segundo do grupo, o Brasil iria enfrentar os Estados Unidos nas semifinais. Jogo que sempre preocupa e que todos querem evitar, pela qualidade da equipe norte-americana. Na outra semi as australianas (donas da casa) enfrentariam as chinesas.

Estava montado o quadro esperado por todos: Estados Unidos e Austrália fariam a final.

Mas esqueceram de avisar as adversárias das duas equipes. A China surpreendeu a Austrália e venceu por 66-65, estragando a festa das meninas da terra dos cangurus e coalas.

Restava o jogo do Brasil contra os Estados Unidos. E numa partida brilhante de nossa equipe, vencemos por 110-107. Faríamos uma final inédita contra as chinesas que haviam nos derrotado nas quartas de finais.

Na madrugada do dia 12 de junho de 1994,  aqui no Brasil, eu estava no sofá de casa enrolado em um cobertor aguardando o momento que seria histórico para nosso basquetebol. Torci silenciosamente para não acordar a turma de casa.

E assim foi. Vencemos a China (96-87) e nos sagramos Campeões do Mundo.

Nossa equipe: Hortência (8j-221pts – cestinha do campeonato), Janeth (8j – 186 pts e 61 rebotes), Paula (8j – 158 pts e 65 assit), Leila (8j – 64 pts), Ruth (8j – 52 pts), Alessandra (8j – 51 pts e 46 rebotes), Cintia (8j – 23 pts), Helen (6j – 11 pts), Simone (4 j – 10pts), Roseli (7j – 8 pts), Dalila (1 j – 2pts) e Adriana Santos (1 jogo).

Como esquecer? Impossível.

E para relembrar ainda mais essa maravilhosa conquista trarei, nos próximos posts, textos de pessoas que fizeram parte dela. Aguardem.