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20 anos do Mundial Feminino – 2

Amigos do Basquetebol

Neste segundo post sobre a conquista do Campeonato Mundial Feminino, realizado na Austrália em 1994, trago a colaboração do Professor Sérgio Maroneze, assistente técnico da seleção feminina naquele campeonato.

“O Campeonato Mundial da Austrália, em 1994, começou antes para nós da comissão técnica. Começou em 1992, quando trabalhamos – Waldir Pagan, Miguel Angelo da Luz, Hermes Balbino e eu – juntos pela primeira vez numa convocação da equipe juvenil para o Campeonato sul americano no Chile. Foi aí que conhecemos verdadeiramente muitas  daquelas que, ao lado das estrelas já então reconhecidas, fariam o sonho se tornar tangível para 1994. Meninas com potencial, com talento, mas ainda assim, meninas nas quais colocar as fichas podia ser assinar a sentença de saída dos cargos a nós confiados pelo então presidente da CBB, senhor Renato Brito Cunha.

 Naquela época a CBB pagava tão somente uma ajuda de custo por competição e como eu estava nas três comissões – cadetes como técnico e juvenil e adulto como assistente – eu fazia o papel de um técnico exclusivo de hoje, trabalhando 365 dias por ano, mas recebendo somente enquanto a convocação estava valendo…

Foi um tempo muito difícil, financeiramente falando. Pouca gente sabe, mas para ficar à serviço das seleções naquele período entre 1992 e 1996, fui à falência total, tendo me desfeito de todo meu patrimônio pessoal. Faria tudo oura vez, é claro, mas são outros tempos agora e quero acreditar que as coisas mudaram para melhor.

 Em se tratando de amistosos, nossa preparação para o Mundial foi trágica. Jogamos contra Cuba em diversos desafios pelo nordeste – condições de piso de quadra inadequados, temperaturas altíssimas, umidade do ar e pressão atmosféricas totalmente diferentes daquelas que iríamos encontrar na Austrália – e também contra a Eslovênia (uma equipe muito inferior à nossa). Antes disso jogamos contra equipes femininas adultas e equipes masculinas de categorias menores de São Paulo.

 Tínhamos que esconder as opções defensivas – minha paixão profissional desde sempre e onde eu atuava com liberdade nos treinos – do presidente da CBB, que só admitia uma coisa, batizada por ele de “defesa individual em massa”. Quando ele se fazia presente, era isso que treinávamos…

Vou achar natural se muitos não entenderem por estarmos acuados, mas o entorno era o seguinte: Miguel e eu tínhamos 34 e 32 anos, respectivamente. Fomos criticados (especialmente o Miguel que vinha do masculino) por 99% dos técnicos, imprensa especializada e aspones de plantão. O ambiente ao nosso redor era extremamente hostil, nesse sentido, e o senhor Brito Cunha nos intimidava profundamente com seu destempero. Aí tomamos a decisão de não levar a Marta Sobral e o mundo quase veio abaixo… Aff…

 Chegamos na Austrália via Melbourne com antecedência para um torneio contra as seleções juvenis “A” e “B” da própria Austrália. O “jetleg” do fuso horário foi otimamente administrado pelo Hermes, que nos levou para treinar assim que pusemos os pés no hotel. No tal torneio as nossas meninas apanharam muito (com a conivência explícita da arbitragem australiana) e perdemos quase todos os jogos. De bom foi a temperatura que tiramos da intensidade de jogo das atletas locais. Mesmo tendo trabalhado numa universidade americana eu nunca tinha presenciado uma coisa igual; impressionante seria a descrição mais simplista do que presenciamos lá.

 Desembarcamos em Lauceston (Tasmânia) para a primeira fase, onde de cada grupo de quatro só sairiam dois para as oitavas. O Waldir descobriu que o regulamento não permitiria que os tênis das meninas fossem de cores diferentes. Ele então mandou comprar tinta preta, sentou no chão no vão da escada e pintou todos os calçados… Devíamos ter fotografado isso…

No primeiro jogo ganhamos de Taipe por quase 30 pontos de diferença com placar centenário. Depois tropeçamos contra a Eslováquia (-11) e nossa sobrevivência foi decidida contra a Polônia (+10). Cabe lembrar que nessa época os jogos das fases iniciais eram todos os dias, sem folga. Três jogos em três dias. Se houvesse problemas, arrumar a casa era um pouco mais complicado então. Bom, passamos dessa e estávamos entre as oito melhores equipes do mundo!

 No hotel em Sidney a imprensa internacional não nos procurava e as outras seleções (exceção feita a Cuba) nos tratavam como seres invisíveis e desprezíveis; era engraçado isso, rsrsrs…

Três dias depois começou outra rodada de três jogos em três dias. Primeiro contra Cuba (+20), depois contra China (- 07) e por fim contra a Espanha de uma Blanca Ares inspiradíssima… (+ 05). Ao meu ver o jogo mais sofrido da campanha foi esse, não a semifinal ou a final. Passamos outra vez. Estávamos entre as quatro melhores equipes do mundo!

 Dois dias depois foi a semifinal contra os Estados Unidos – um timaço – e tenho orgulho de escrever que elas não viram a cor da bola. Levaram um baile, técnico, tático e estratégico. Placar final 110 x 107 que não traduz o jogo de verdade, pois ditamos o ritmo desde o início até o fim. Nossa… ganhamos delas; nos tornamos uma das duas melhores equipes do mundo!

No dia seguinte (isso mesmo, no dia 12 de junho, um dia depois da semifinal contra os EUA), jogamos a final do Campeonato Mundial da Austrália.

Antes do jogo a coisa que eu mais me lembro é que eu e o Miga não dormíamos há séculos. Estabelecemos uma rotina de estudar os jogos dos adversários com o vídeo cassete (!) nas madrugadas de um dia para o outro e decidíamos o plano de jogo e a preleção do dia seguinte com base nisso. Na medida que a receita foi dando certo, ficávamos cada vez mais tempo e, nessa ocasião em especial, quase amanhecemos dentro de uma salinha bolorenta com tapete vermelho e sem ventilação num dos andares do hotel…

Enfim, decidimos que a chave do jogo estaria na marcação da Haixia e que correríamos o risco de perder o jogo lá fora, mas iríamos dificultar a bola para ela mesmo assim. Sugiro que todos que ainda não assistiram a esse jogo o façam agora, pois será mais fácil entender o que aconteceu lá. As meninas estavam confiantes e inspiradas.

Ganhamos o oitavo jogo e nos tornamos a melhor equipe do mundo! Que orgulho!

Aquela medalha era de muitos lugares e de muitas pessoas. Sorocaba, Piracicaba, Jundiaí, Santo André, Catanduva, Bauru, São Caetano, São Bernardo, Presidente Prudente, Presidente Wenceslau, Araçatuba e tantas outras cidades e profissionais que por aí passaram e que construíram os alicerces dessa conquista.”

Sérgio Maroneze

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