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Exemplo a ser seguido?

Amigos do Basquetebol

O título acima é antes de tudo uma provocação. Pode ser interpretado de suas formas: ou uma contundente afirmativa ou uma grande dúvida.

Refiro-me a um assunto que, certamente, muitos dos meus amigos “basqueteiros” irão me esfolar vivo. É o sucesso do voleibol.

Muitos fanáticos do basquetebol atribuem esse sucesso ao cenário do voleibol mundial que, segundo eles, tem poucas equipes de alto nível para aspirar aos principais títulos em competições internacionais, no caso, Campeonatos Mundiais e Jogos Olímpicos.

Eu até concordo com essa argumentação pois, enquanto o volei possui no máximo 5 equipes que se equiparam, no basquetebol temos, pelo menos 12 equipes que podem ter como objetivo o pódim nessas competições.

No entanto, o voleibol brasileiro soube tirar partido dessa situação e se mantém no pódium há décadas. Se não há equipes suficientes para brigar com o Brasil eu diria que o problema é dessas equipes. Portanto, queiram ou não os mais ferrenhos “basqueteiros” nosso volei é a equipe a ser batida. E isto tanto no masculino quanto no feminino.

Será que isto acontece só em função do cenário mundial ou será que houve um trabalho a longo prazo, privilegiando as categorias de base que fazem com que as seleções de voleibol estejam em constante renovação e com um nível invejável?

O que aconteceu com esses esportes se considerarmos o período de ascenção do volei que começou com a conquista da prata olímpica em 1984? E é a partir desta data que a análise deste post está baseada.

Naqueles Jogos Olímpicos o Brasil foi prata no Volei Masculino e 9o. lugar no basquete (lembrando que o basquetebol feminino somente entrou no programa olímpico em 1992).

A partir daí o Voleibol teve uma ascenção fantástica enquanto o Basquetebol teve seus momentos de alegria como a conquista do Pan em 1987 pelo masculino e pelas brilhantes conquistas do Mundial de 1994, Prata nos jogos Olímpicos de 1996 e bronze em 2000 pelo feminino.

Mas os resultados são contundentes e se analisados sem o fervor do fanatismo nos deixam com a “pulga atrás da orelha”.

Fora esses resultados já citados, nosso basquetebol viveu uma seca olímpica no masculino de 1996 a 2012, quando retornou e conquistou um bom 5o. lugar. Nesse mesmo período, o voleibol masculino obteve dois titulos, duas pratas e um 4o. lugar. No feminino tivemos quase o mesmo quadro. Enquanto nosso basquetebol olímpico obteve a prata em 1996 e o bronze em 2000, o voleibol feminino obteve dois títulos e duas medalhas de bronze.

Em termos de Campeonatos Mundiais nosso melhor resultado no masculino aconteceu em 1986, quando conquistamos o 4o. lugar. A partir daí obtivemos somente colocações ditas “honrosas” como o quinto lugar em 1990 e recentemente em 2014. Enquanto isto o Voleibol foi tri campeão (2002, 2006 e 2010) e vice recentemente em 2014.

No feminino nossa campanha foi um tanto melhor com o título de 1994. Depois disto somente dois quartos lugares (1998 e 2006). O voleibol, por sua vez, obteve 3 títulos, 4 vices e 2 terceiros lugares.

Como não há paralelo para se comparar, cito apenas outras competições que nosso voleibol tem tido sucesso: 10 vezes campeão do Grand Prix Feminino e bi-campeão da Copa do Mundo Masculino.

Se esta realidade chocante não bastasse, nas categorias de base a coisa fica realmente feia para o basquetebol. Na categoria sub-19 (que no voleibol é chamada de juvenil) o Brasil teve seu melhor resultado em 2007, quando foi 4o. colocado no masculino.

Mas o mais importante a ser citado, talvez seja o fato de que o Brasil tem uma participação muito irregular nessa importante competição. Das nove edições realizadas de 1987 a 2013 não participamos de 3 delas. Pode parecer pouco, mas são três gerações de atletas que deixaram de ter uma experiência internacional importante.

Até meados da década de 1990, mesmo sem bons resultados tivemos a revelação de muitos jogadores que integrariam as futuras seleções brasileiras. Cito alguns: Roese, Fernando Minucci, Alexey, Adriano Bavaresco, Vanderley, Janjão, Rogério, Jefferson e Giovannonni, entre outros. Da equipe que obteve um maravilhoso quarto lugar em 2007, nenhum atleta foi revelado para nossa seleção adulta. Somente em 2011 tivemos a revelação de 3 atletas que atualmente fazem parte das convocações e integram nossa seleção adulta no último ciclo mundial (2010-2014): Raulzinho, Cristiano Felício e Leo Mendl.  E os demais onde estão?

Nesse mesmo período, o voleibol conquistou quatro títulos, cinco vices e dois terceiros lugares. Mas o mais importante é a revelação de muitos atletas que fazem com que as seleções adultas sejam renovadas com qualidade, mantendo seu status internacional.

No feminino o quadro não muda muito. O voleibol conquistou seis títulos, quatro vices e dois terceiros. No basquetebol, nas oito vezes (em 10) que disputamos o sub-19 nosso melhor resultado foi o terceiro lugar em 2011. Muitas atletas surgiram dessa competição e integraram nossa seleção adulta. Recentemente posso citar Damiris, Clarissa, Ramona, Tainá e Isabela. Sem esquecer das gerações mais antigas que participaram dos mundiais sub-19 como Helen, Mamá, Janeth, Adriana Santos, Iziane, Adrianinha, Erika e Alessandra.

Para mim, esse quadro muito diferente não acontece somente pelo fato do voleibol ter menos equipes em condições de disputar títulos internacionais. Isto revela uma grande diferença de tratamento que é dado às categorias de base entre os dois esportes.

Enquanto o voleibol investe pesado na participação de seus atletas jovens em competições internacionais, garantindo a reposição nas equipes adultas, o basquetebol tem postura muito diferente.

Não quero defender com isto que atletas experientes não devam ser convocados. Mas sim, que haja uma mescla progressiva entre experientes e mais jovens para que tenhamos garantidas futuras gerações vencedoras em nosso esporte.

Atualmente, principalmente no basquetebol masculino, há uma carência muito grande de atletas com nível internacional, exatamente porque pouco se investe na formação de jovens e na criação de oportunidades para que esses jovens possam experimentar um basquetebol diferente daquele que praticam em nível nacional.

Este é um trabalho a longo prazo que se for iniciado agora, poderá trazer resultados em 2019. Ou será que, em 2019, ainda dependeremos de alguns atletas que hoje já podem ser considerados veteranos? E, por favor, não entendam que eu não reconheça os serviços prestados por esses atletas ao basquetebol nacional.

Mas a pergunta que faço é: hoje, se tirarmos 4 ou 5 atletas da atual seleção masculina, quem colocaremos em seus lugares?

Vejo que no feminino, apesar de toda a dificuldade encontrada para se manter as equipes e realizar campeonatos no Brasil, há uma tentativa de renovação. Isto pode nos trazer resultados negativos no momento? Pode sim. Mas temos que acreditar que este seja o caminho.

Será que não está na hora de pensarmos numa reformulação total em nossos conceitos sobre o trabalho realizado na base e sobre a forma como os campeonatos são disputados onde se privilegia o resultado e não a formação do atleta?

Será que não está na hora de investir pesado na formação de atletas dando a eles condições de vivenciar outras realidades? Por que não utilizar a LDB para formarmos seleções de jovens para excursionar ou mesmo participar de competições internacionais?

Claro que para isto é preciso dinheiro. Dinheiro de patrocinador que, como sabemos, virá a partir de resultados. Resultados esses que o voleibol soube trabalhar e com isto ter grana para manter o projeto.

Finalizando, gostaria de deixar bem claro que não estou fazendo a apologia do voleibol, mas olhando de forma realista o que está aí posto. Enquanto continuarmos achando que os resultados do voleibol são produto do acaso, continuaremos sentados nas glórias do passado, que nos mostram um presente nada convincente e que nos levarão a um futuro cada vez mais triste para o nosso basquetebol.

Em tempo: escrevi este texto preparado para as cacetadas que, certamente, virão. Mas prefiro ouvir as críticas do que continuar achando que nosso basquetebol é um mar de rosas. Pelo menos estou tranquilo com minha consciência.

E só para terminar e deixar meus amigos basqueteiros menos irados comigo: não consigo assistir a um jogo inteiro de voleibol.

 

 

 

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2 comentários em “Exemplo a ser seguido?

  1. A diferença do basquete para vôlei e o tanto de experiência internacional que e dada aos atletas do vôlei nos não temos…. Você citou basquete feminino?! Quantas já saíram do pais ?! No másculino Com rara exceção as revelações estão vindo de experiências de fora…o trabalho que está falho e administrativo!!!! Primeiro meu salário, depois do tec. Do adulto…depois alguns jogadores….e o resto do basquete de sub-22 até 15 quando existe competição internacional senão não se faz….somos pobre demais internacionalmente!!!!! Mais somos 2 gozados falado de basquete para eles…..

    1. Telma

      Infelizmente, parece que a CBB não quer ouvir pessoas que estão trabalhando há anos pelo basquete. Veja o caso da ENTB. Lembra quando você disse no Pinheiros que daquela vez o sonho não iria acabar? Pois para mim acabou a partir do momento que fui alijado da Escola por conta de uma birra pessoal de alguém que não tem nem a metade da experiência e competência que muitos de nós temos para lidar com o basquete. Por dizer verdades fui afastado sem qualquer explicação sendo considerado como um qualquer na instituição. Enfim, esta é a nossa realidade e eu continuarei lutando pelo nosso esporte apesar de muitas pessoas que parecem lutar contra.

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