Opinião do autor

O ensino do Basquetebol nas Escolas de Educação Física de São Paulo

Amigos do Basquetebol

Depois de uma pequena ausência volto com um tema que tem me preocupado e que tem sido assunto recorrente em palestras e cursos em que tenho a oportunidade de participar.

Trata-se do ensino do Basquetebol nas Escolas de Educação Física. A partir de um levantamento que venho realizando através de consultas a sites das instituições e contribuições de colegas que ministram o basquetebol em IES trago um quadro da situação atual do ensino de nossa modalidade para os alunos das Escolas de Educação Física.

De forma geral o que observo é uma tendência de se falar cada vez menos de esporte nas Escolas. O culto às atividades em academias e ao “personal trainner”, além do que chamo de “criminalização do esporte” por setores de nossa área que optam pela “filosofização” ao invés da ação podem ser os fatores responsáveis pela atual situação do ensino das modalidades esportivas nas EEFs e consequentemente do próprio basquetebol.

E isto nos traz uma questão que considero contraditória. A questão é que os CREFs exigem a graduação em Educação Física para que se exerça a profissão de técnico em basquetebol (ou em qualquer outro esporte), mas as Escolas não estão fornecendo subsídios suficientes para a formação desses técnicos. O quadro agrava-se na medida em que não há cursos complementares específicos nas modalidades e a ENTB criada para de certa forma suprir essa lacuna, naufragou nos seus objetivos, fruto da pouca importância e do descaso com que a CBB tratou nossa Escola de Treinadores, alterando os objetivos que foram traçados por um grupo significativo de profissionais e que foram simplesmente descartados pela nossa Confederação.

Como parte deste levantamento trago ao conhecimento dos amigos os dados referentes ao ensino do Basquetebol nas Escolas de Educação Física do Estado de São Paulo. Futuramente e com a ajuda dos colegas de todo o país trarei os dados nacionais.

Instituições pesquisadas: 34 (10 públicas e 24 particulares)

Cursos pesquisados: 56 (17 nas públicas e 39 nas particulares)

Tipo de curso: Licenciatura em Ed. Física – 26; Bacharelado em Ed. Física – 26; Bacharelado em Esporte – 4

Oferecimento da disciplina especícia “Basquetebol”: 47 instituições oferecem a disciplina na carga horária dos cursos; 9 não oferecem a disciplina, sendo que em 8 cursos o Basquetebol é ministrado em disciplinas que abordam as modalidades coletivas de forma geral. Em um dos cursos não se oferece o basquetebol e tampouco qualquer disciplina relacionada a modalidades coletivas.

Obrigatoriedade da disciplina “Basquetebol”: dos 47 cursos que oferecem a disciplina, em 45 deles ela é obrigatória. Dos 8 cursos em que o Basquetebol faz parte de uma disciplina mais ampla, em 6 a disciplina é obrigatória.

Número de semestres nos quais a disciplina Basquetebol é ministrada: 37 cursos oferecem a disciplina em 1 único semestre; 8 em dois semestres e 2 em três semestres

Carga horária da disciplina: a carga horária de oferecimento da disciplina “Basquetebol” varia de 30h/a a 120 h/a. 16 cursos oferecem a disciplina com carga horária de 60h/a; 8 cursos com carga de 30 h/a; 7 com carga de 40 h/a. Apenas 4 cursos oferecem a disciplina com carga de 120 h/a. Outras cargas de oferecimento: 45, 60, 75, 88 e 90 h/a.

Denominações: a disciplna “Basquetebol” é oferecida sob diversas denominações. A mais frequente é a própria “Basquetebol”. Outras deniminações: “Aprofundamentos em Basquetebol”; Estudos Avançados em Basquetebol”; “Basquetebol na Escola”; “Estágio em Basquetebol Escolar”; “Teoria e Prática no Esporte: Basquetebol”; Manifestações Culturais Desportivas: Basquetebol”; “Metodologia do Basquetebol”; Esportes Coletivos I: Basquetebol”; “Teoria e Prática no Basquetebol”; “Ensino e Aprendizagem no Basquetebol”.

Nas disciplinas com abordagens gerais nas quais o “Basquetebol” está inserido encontramos as seguintes denominações: “Pedagogia dos Esportes Coletivos”; Esportes Coletivos I”; Esportes Coletivos terrestres”; “Modalidades Esportivas Coletivas”; “Programas de Esportes Coletivos”.

A abordagem feita nesta análise é exclusivamente numérica sem que se entre no mérito dos conteúdos.

Mas o que se pode perceber a partir dos números é a pouca carga horária destinada ao ensino do basquetebol na maioria dos cursos o que nos leva a indagar se um aluno de educação física que passa por este tipo de situação estaria apto a exercer a função de técnico de basquetebol e mais especificamente técnico de categorias de base.

Esta preocupação aumenta quando notamos quem nos currículos analisados há poucas disciplinas que se preocupam com questões pedagógicas necessárias para a formação adequada de técnicos especializados.

Os currículos atualmente privilegiam o ensino voltado para as atividades em academias ou para a educação física escolar baseada em teorias e conceitos que excluem o esporte das aulas, ignorando o fato de que o esporte é uma das atividades mais motivadoras para as crianças e jovens.

Além disto, o excesso de “cientifização” dos cursos, acreditando-se na formação de pesquisadores e produtores de artigos científicos, pode estar contribuindo para a escassez de profissionais para atura junto ao público real, aquele que necessita da intervenção adequada de um profissional bem formado.

Evidentemente que a pesquisa é fundamental para o desenvolvimento da área, mas excluir a formação prática (não no sentido do desempenho do aluno de educação física, mas no sentido da vivência em atividades esportivas) me parece ser um equívoco que está causando danos irreparáveis à nossa área.

A publicação de artigos científicos em revistas internacionais de alto impacto é uma necessidade para se manter o nível das instituições junto aos órgãos fomentadores de pesquisa. Mas a publicação de artigos e livros técnicos ainda é uma necessidade premente para a realidade de um país em que a esmagadora maioria dos profissionais da área não têm acesso às publicações internacionais e de grande impacto e que necessitam de orientações básicas para poder desenvolver o esporte com as mínimas condições pedagógicas desde a sua base.

Em breve colocarei também a situação em nível nacional que, em uma breve análise já feita, não altera o quadro aqui descrito.

 

 

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4 comentários em “O ensino do Basquetebol nas Escolas de Educação Física de São Paulo

  1. Prezado professor Dante De Rose Junior

    O levantamento que realizou está focado na perspectiva exclusiva do Basquetebol, o que não diminui ou descredencia sua argumentação. No entanto, estabelecer a desvalorização das propostas de formação docente para o cotidiano escolar e julgá-las como improcedentes e até afirmar que os esportes estão excluídos da formação docente é um equívoco. Há, em muitas escolas de Educação Física de nosso Brasil, a preocupação clara com a formação do licenciado em Educação Física, que deve compreender com clareza sua função social na Escola. E quando falamos de escola estamos nos referindo ao componente curricular Educação Física que, como é do conhecimento geral, fazem parte os esportes, as lutas, dança, em suma, as diversas manifestações da cultura corporal de movimento e não apenas privilegiar apenas uma modalidade esportiva. Fui aluno de um professor que tinha no Basquetebol sua única atividade de ensino por longos 3 anos. Que incoerência foi esta em minha vida. Por sorte, em mais dois anos, tive a honra de ser aluno do professor Pedro Henrique de Toledo que nos propiciou vivências com inúmeros esportes, incluindo o atletismo e, pasmem!! arremesso do dardo em uma escola pública, não era só uma vivência.
    Assim como estabelece a crítica sobre a formação docente, com a qual concordamos, creio ser prudente considerar a diversidade de interesses, necessidades e capacidades dos educandos na educação básica nacional. O senhor conviveu na USP com as transições em busca de soluções formativas que atendessem as especificidades da Escola, do Clube, dos espaços de Lazer e, também, os espaços de promoção da saúde. O que vimos ocorrer ao longo dos anos foi a confusão de objetivos e estratégias. A educação física escolar tentava formar equipes representativas (campeonatos colegiais, no qual existia o Basquetebol) em detrimento da oportunidade da cultura corporal de todos os alunos (aulas para todos eram – ainda o são – suspensas para que um grupo minoritário participe da competição). E por outro lado o Esporte, com todas as suas (in)coerências, que busca formar o profissional para as vertentes do rendimento, do lazer e da saúde, afirma categoricamente que educa através do esporte.
    Mais um dado deve ser acrescido ao seu trabalho, se colocarmos maior carga horária para o Basquetebol, qual seria a duração de um curso que considere apenas os esportes olímpicos? Como incluir, Judô , Polo Aquático, Esgrima, Tiro, Arco e Flecha, Remo, Boxe , e etc..?
    Mas, concordando uma vez mais com parte de sua argumentação, há um vácuo de formação para as especificidades esportivas que, em termos da legislação brasileira, deveria ser suprido com os cursos técnicos e com a formação continuada de profissionais.
    No entanto, em nosso país, autorizamos um cidadão que sequer passou pelo ensino médio e foi “provisionado” pelo CREF-CONFEF para continuar exercendo atividades de orientação de jovens, entre eles conheci um que administrava diuréticos para crianças de nove (9) anos perderem peso na véspera de uma competição.
    Tivemos a oportunidade de conhecer alguns currículos de escolas de Educação Física que se dizem preocupadas com a licenciatura e entre os componentes curriculares estão Treinamento de Natação, Treinamento de Atletismo e outros tantos, assim como componentes curriculares Fisiologia do Esforço, Nutrição do Esportista, Psicologia do Esporte e etc.. São, tanto quanto sua argumentação, aberrações da ausência de clara políticas para cada uma das áreas de intervenção.
    Concordo, também, que não existem cursos de formação para as necessidades específicas de cada esporte ou modalidade esportiva que estão presentes em nossa sociedade (mais de 3.000 esportes). Assim como, as ditas federações esportivas, pouco ou nada desenvolvem ações com vistas a essa formação. Talvez, quem sabe, a própria intervenção do MEC, impedindo que cursos de Lato Sensu ou especialização sejam ofertados e validados fora das Instituições de Ensino Superior (desde 2010 e agravadas as condições a partir de junho de 2014).
    Outro ponto que gostaria de provocar discussões. Temos observado que muitas ações estão voltadas para a ” formação de crianças para o esporte e pouco na direção do esporte para crianças”. Muitos defensores de esportes estão preocupados com o Esporte enquanto resultados e nada com os seres humanos que nele e a ele se dedicam.
    Não se trata de um jogo de palavras. A visão equivocada de nossos dirigentes (em todos os níveis) colabora ainda mais para esta degradação.
    Houve, e o senhor professor deve estar lembrado, quando a formação em Educação Física não era dividida entre Licenciatura e Bacharelado e o caos que se estabeleceu. Hoje, ainda existe este mesmo problema, os cursos oferecem simultaneamente ambas as formações e relegam a planos secundários ou atenção inexistente à licenciatura. Basta ver a configuração curricular que o senhor também apontou.
    Há, portanto, a necessidade serem estabelecidas estratégias específicas para cada área de intervenção e, por conseguinte, políticas claras (o que, de fato, ainda não existe). Sua contribuição nos encontros da ALESP, discutindo esta e outras questões, favoreceu o surgimento de novos olhares sobre as questões.
    Quem sabe, um dia, e esperamos estar vivos para ver surgir movimentos coerentes.
    Professor Daniel Carreira Filho

    1. Caro Daniel. Por todos os anos de nossa convivência não vou chamá-lo de senhor. Brincadeira a parte agradeço sua colaboração. Meu argumento é que nossa área foi invadida por uma necessidade de se prover profissionais para um mercado da moda em detrimento de dsiciplinas verdadeiramente necessárias para a formação de profissionais para atuar em setores da sociedade que privilegiam um público muito mais necessitado de orientação. Nossos jovens profissionais, atualmente, não recebem nas escolas orientação mínima para lidar com a formação esportiva. E não me refiro a um ou outro esporte especificamente. Refiro-me a uma formação pedagógica básica que lhes permitam atuar nas escolas, escolinhas e clubes da forma mais adequada possível. É claro que se levarmos em conta a quantidade de esportes e atividades que deveriam ser contempladas, provavelmente o curso de Educação Física deveria ser realizado em 20 anos. Mas o que acontece hoje, na maioria das Escolas é o abandono dos conceitos mínimos das atividades esportivos, isto fruto de um movimento iniciado nos anos 90 (em nossa escola) que colocou o esporte como uma coisa nefasta e desnecessária. Quanto ao provisionamento concordo totalmente, pois o CREF durante muito tempo e ainda o faz, dificulta o registro dos alunos formados no Bacharelado em Esporte. Uma das questões que levanto e que, talvez, pudesse amenizar esta questão da má formação seria o resgate dos antigos cursos técnicos, onde muitos de nós realmente aprendemos a encarar o esporte de forma mais organizada e adequada. Enfim, são posições que defendo e toda contribuição nesse sentido, favorável ou não será sempre bem vinda neste espaço. Abraço a você.

  2. Obrigado professor Dante, pois estava em busca exatamente de um texto/artigo que tivesse informações sobre o abandono dos esportes na escola, e melhor ainda contendo dados sobre o basquete!

    Também tenho a convicção de que o esporte na escola, ensinado de forma técnica e pedagógica é o melhor caminho para mudar esse quadro de desinteresse em atividades físicas, que acarretam em problemas de saúde (sedentarismo, sobrepeso, obesidade) bem como outros problemas sociais relacionados (desrespeito, falta de educação, marginalidade,…)!

  3. ​Professor Dante, enviei informações sobre os festivais que realizo a cada semestre aos alunos do curso de Educação Física, onde tento oferecer uma realidade que os próprios alunos vão encontrar no mercado de trabalho quando sair da universidade.

    Att.

    Prof. Eduardo Macieira

    Universidade CEUMA

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