Entrevistas

Uma mulher no comando: entrevista com Mônica dos Anjos

Amigos do Basquetebol

No basquetebol, raramente nos deparamos com a situação de uma mulher dirigir equipes masculinas. O que não acontece na situação inversa, onde a maioria das equipes femininas são dirigidas por homens. Talvez seja pela tradição, pelo mercado de trabalho ser voltado para homens ou mesmo preconceito. A verdade é que são raros os casos da liderança feminina frente a equipes masculinas e na LDB, encontramos um desses raros casos.

Refiro-me à Professora Mônica dos Anjos, técnica de basquetebol, atualmente dirigindo a equipe do Pequeninos Rhema de Campina Grande que disputa a LDB 2015  que nas edições de 2013 e 2014 dirigiu a equipe do Náutico Capiberibe do Recife.

Por ser a única mulher a dirigir uma equipe masculina na competição é que conversamos sobre questões que abordam liderança, relação entre técnica e atletas, metas e projetos. Inicialmente solicitei à Mônica que falasse um pouco de sua carreira esportiva e como surgiu a oportunidade de dirigir uma equipe masculina em campeonatos estaduais, regionais até chegar à LDB:

“Meu caminho foi igual a de muitos outros técnicos. Iniciei jogando pelo colégio, passei por equipes femininas do Recife e também pela seleção pernambucana nas categorias de base. Apesar de não ser uma grande jogadora eu era muito competitiva, disciplinada e gostava muito de jogar. Quando terminei o terceiro ano meu técnico me chamou para ser estagiária no colégio para trabalhar com a escolinha. Aí teve uma competição e ele tinha várias equipes e me deixou com uma equipe pré mirim masculina. Conseguimos ganhar o estadual. Foi uma experiência maravilhosa. E isto me mostrou o que eu realmente queria.

Na sequência eu assumi o feminino onde trabalhei por volta de 15 anos. Trabalhei com escolinha e participei como assistente na equipe feminina que disputou a Liga Nacional mas no colégio que eu trabalhava havia muita procura pelo basquetebol masculino. Então o diretor me pressionou para arrumar um horário para trabalhar com o masculino.

Daí em diante a coisa foi crescendo e eu acabei ficando com o masculino e sempre pensando no que eu poderia fazer e nas metas que eu poderia estabelecer. A equipe era boa, foi evoluindo e começou a ganhar campeonatos estaduais mesmo sendo colegial. Era um grupo forte a Escola dava uma boa estrutura. Como o grupo era diferenciado eu vi nele um grande potencial. Isto aconteceu por volta de 2006.

Com esta equipe, mesmo juvenil, disputamos Estaduais, Copa Brasil e em 2011 houve a primeira LDO e eu tracei uma meta de entrar nessa competição, mesmo que isto demorasse alguns anos e apesar de treinarmos pouco. Eu queria entrar com um time local mesmo que não tivéssemos condições de continuar. Eu gosto de testar meus limites. Preciso tentar. Não me frustro por não conseguir e sim por não tentar. E esse era o objetivo: chegar na LDB.

Em 2013 entramos na LDB com o Náutico na LDB para mostrar que na região também há talentos. Para nós foi um choque. Ganhamos um só jogo. Parecia que jogávamos em outra rotação. Nosso jogo era lento em relação a outras equipes mais fortes. Até para o trabalho de base isso era importante e eu comecei a conversar com as pessoas que trabalhavam na base para que mudassem a forma de treinar. Mesmo ganhando um só jogo, a equipe teve uma melhora muito grande durante a competição. E isto nos incentivou a continuar.

Para a LDB 2014 mudamos o treinamento, era mais profissional, estávamos mais preparados e trouxemos alguns atletas. E naquela competição nossa meta era muito real: ficar nos postos intermediários. Ganhamos 11 jogos em 23” e atingimos nossos objetivos”

Depois de ficar anos no Náutico, em 2015 a Professora Mônica mudou para o Pequeninos Rhema que é um projeto social em Campina Grande que, entre tantas coisas, privilegia também o esporte e abraçou o basquetebol. Sobre esta mudança a Mônica disse o seguinte:

“Eu moro em Recife e conseguimos montar um estrutura muito boa em Campina Grande. Mas é complicado porque eu vou aos finais de semana e treinamos 3 dias (sexta, sábado e domingo). Eles abriram mão do final de semana. No meio da semana treinam com o assistente e o preparador físico.

Mas mesmo com essas dificuldades já tivemos um ganho fisicamente na velocidade, tecnicamente e taticamente. O grupo está junto há um mês o que não é suficiente. A meta para este ano é para repetir o que foi feito no ano passado, mas se vacilarem tentaremos ficar entre os oito. Sabemos que há equipes fortes mas se forem deixando tentaremos ficar entre os oito. Tem muito trabalho a ser feito mas eu não sou de me acomodar. É a meta. Se não conseguirmos vamos trabalhar mais forte ainda.”

Na sequência falamos do relacionamento com o grupo de garotos, disciplina e respeito e como lida com essas situações de liderar um grupo masculino.

“Trabalhei muito com feminino e as exigências são as mesmas. Eu converso muito com eles. Eu não sou uma técnica que fica na porta do hotel vigiando os atletas. Não perco minha noite de sono com isto. Perco as noites estudando e vendo os vídeos e analisando os jogos. Tem que haver comprometimento e consciência.

O trabalho deve ser conjunto. Se eles não tiverem essa consciência fica difícil. É uma relação de confiança. E esta confiança deve partir da liderança. Eu não faço o que eu não permito que eles façam. Eu sou radical e já mandei atleta embora no meio da competição.

Quando acontece um problema eu trato individualmente. Quando o problema atinge o grupo aí eu chamo a atenção do coletivo. Sendo mulher eu tenho que tomar cuidado na maneira de falar e me dirigir a eles. Mas a franqueza é muito importante. Quando eu não gosto eu falo abertamente.

Os problemas existem mas sempre tentamos resolver internamente e com muita franqueza. O problema não pode crescer. 

Tento ser amiga deles e me importo com a vida deles fora das quadras. É importante ter uma convivência com os meninos. Vamos juntos ao cinema e isso aproxima. Eume considero amiga deles e muitos me vêem também como uma amiga.

Eu sou daquelas que perco o jogo mas não abro mão do que acredito. Perdi jogos porque Já deixei atletas de fora por indisciplina.

Por ser mulher dirigindo homens nunca tive problemas de pressão ou preconceito exatamente por esse relacionamento respeitoso entre todos”

Para finalizar conversamos sobre o projeto Pequeninos.

Este projeto social foi uma das coisas que me levou a ir a Campina Grande e mudar toda a logística da minha vida. Ele é desenvolvido em Soledade que fica a cerca de 40km de Campina Grande e é coordenado pelo pastor Jairo Pacheco.

Acredito no esporte como fator de mudança social e não só como formador de atletas. Eu me preocupo muito com as crianças de um modo geral e principalmente com aqueles que não serão atletas mas que querem praticar esporte.

O projeto reune cerca de 1500 crianças, tem centro de reabilitação, aulas de inglês, espanho e informática, reforço escolar, educação religiosa e música. E o basquete se tornou o carro chefe na divulgação do projeto, mas há a intenção de expandir para outros esportes. Nossa equipe se tornou um espelho para essas crianças. Vamos ser multiplicadores e influenciar positivamente na vida delas. A ideia é participar de competições de base.

Ele funciona muito bem. O retorno é maravilhoso. A comunidade olha para nossa equipe e as pessoas acompanham pelas redes sociais e nas atividades que realizamos. A cidade para.Temos público. E para o basquete é muito importante.

E no futuro temos a ambição de participar da LIga Ouro. Já estamos trabalhando para isto melhorando nossa estrutura e mostrando que temos condições para isto. É claro que temos que reforçar a equipe. Então sempre penso em melhorar de um ano para outro.”

Para conhecer mais sobre o Projeto Pequeninos acesse http://www.projetopequeninos.com.br/

Mônica (a terceira da esquerda para a direita) e a equipe dos Pequeninos Rhema
Mônica (a terceira da esquerda para a direita) e a equipe dos Pequeninos Rhema
O projeto Pequeninos onde o basquetebol é exemplo
O projeto Pequeninos onde o basquetebol é exemplo

 

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