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Intervenção do técnico dentro de um sistema de qualidade

Amigos do Basquetebol

Neste post trago uma tradução resumida e adaptação livre de um capítulo do livro “Aportaciones téoricas y prácticas para el baloncesto del futuro” (Alberto Lorenzon, Sérgio Ibañez e Enrique Ortega.

Ela trata do processo de intervenção do treinador em um sistema de qualidade. Esta atuação deve permitir que se conheça com precisão o trabalho que será realizado para comprovar seu ajuste a critérios de qualidade.

As pautas básicas desse sistema de qualidade aplicadas ao treinamento no basquetebol se estruturam em cinco aspectos:

  • Dizer o que fazemos
  • Fazer o que dizemos
  • Registrar o que fazemos
  • Avaliar o que fazemos
  • Atuar sobre as diferenças

Dizer o que fazemos

É a primeira fase do sistema e tem relação com as primeiras decisões tomadas pelo técnico. Os técnicos antes de iniciar uma temporada têm uma ideia do trabalho que pretendem realizar com suas equipes. Essas ideias têm que estar fundamentadas em um planejamento.

Planejar não é somente organizar sequencialmente as atividades e tarefas e estabelecer o tempo para realizá-las. Ele deve documentar as intenções e deixá-las claras aos jogadores tanto para a temporada quanto para as sessões de treinamento. Esse documento é o primeiro passo para um sistema de qualidade do treinamento.

Fazer o que dizemos

O objetivo desta faze é colocar em prática o que foi planejado e documentado na primeira etapa.

Há técnicos (rígidos) que seguem à risca o que foi documentado; há técnicos (flexíveis) que se adaptam a situações não previstas no planejamento e há técnicos (improvisadores) que não respeitam o planejamento previamente definido. É importante que um técnico tenha flexibilidade para modificar o planejamento e tome decisões de acordo com o surgimento de novas situações.

Registrar o que fazemos

Esta fase tem como objetivo registrar a intervenção real do técnico, para que se verifique o que foi feito em relação ao planejamento inicial e também em relação às modificações que acontecerem no decorrer do trabalho.

É importante que esses registros sejam feitos de forma a permitir uma análise posterior.

O desajuste entre o que foi planejado e o que foi realmente trabalhado está condicionado a uma série de fatores que o técnico tem que identificar e tomar decisões rápidas para adaptar ao treinamento sem perda de tempo.

O registro dessas situações poderá ser muito útil no futuro quando as situações ocorrerem novamente.

Avaliar o que fazemos

O objetivo desta fase é o de avaliar periodicamente o treinamento realizado tanto por uma avaliação interna (pelo próprio técnico) quanto por uma avaliação externa (pela comissão técnica e pela instituição à qual ele está vinculado).

Para que a avaliação seja eficaz ela deve ser feita através de dados objetivos.

Atuar sobre as diferenças

O objetivo desta fase é analisar e refletir sobre as causas das diferenças provocadas entre o que foi planejado e o que foi efetivamente realizado. Esta análise e reflexão deve servir para que em futuros treinamentos essas diferenças não aconteçam.

Essa análise embasa quatro decisões:

1 – repetir as atividades que se mostraram eficientes

2 – Adequar o tempo de cada atividade no treinamento

3 – Realizar ajustes ou modificações na organização das tarefas do treinamento

4 – Adequar as estruturas das situações de treinamento

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Colaboradores · Psicologia do Esporte

Aspectos psicológicos em atletas de alto rendimento

Amigos do Basquetebol

Neste post trago a colaboração da psicóloga esportiva Adriana Lacerda.

Ela é Psicóloga Confederação Brasileira de Judô, Psicóloga Seleção Brasileira Sênior de Nado Sincronizado, Docente Universidade Veiga de Almeida, Especialista em Psicologia Aplicada ao Esporte de Alto Rendimento e Mestre em Ciência da Motricidade Humana.

Profissional extremamente competente ela nos traz uma visão sobre a importância da psicologia esportiva no esporte de alto rendimento

“Diante da demanda crescente pela busca por resultados no esporte de alto rendimento e próximos de sediarmos o maior evento esportivo do mundo, cada vez mais a preparação global do atleta brasileiro torna-se indispensável. Será que competir em casa ajuda ou atrapalha?

E o que faz de um atleta campeão?

Já se sabe que alguns fatores são primordiais como a preparação física, técnica/tática, estrutura e recursos para treinamento, planejamento, acompanhamento nutricional e médico. No entanto, aquela bola decisiva perdida, a braçada final, o segundo que define o primeiro e o segundo lugares estão, muitas vezes, relacionados ao equilíbrio emocional do atleta.

Altos níveis de ansiedade, falta de motivação e baixa autoconfiança são alguns aspectos psicológicos que podem interferir negativamente a performance de um atleta.

Atualmente no Brasil, clubes, federações, confederações e os próprios atletas têm recorrido ao psicólogo esportivo para atuar na preparação psicológica visando um melhor controle destes aspectos.

Uma das etapas deste trabalho compreende o treinamento de cinco habilidades mentais básicas: ativação, atenção e concentração, mentalização, estabelecimento de metas e autoconfiança.

Entende-se por ativação o nível de excitabilidade física e/ou mental do atleta e seu nível ideal é individual. Alguns atletas, dependendo da demanda do esporte e das características da personalidade, necessitam estar bem ativados para competir, outros nem tanto. A ativação também pode influenciar a capacidade do atleta em se manter concentrado na medida em que, se o atleta estiver mais ativado do que deveria a probabilidade de dispersão aumenta.

Já a atenção pode ser definida como a habilidade de focar em um determinado estímulo, e a concentração como a capacidade de mantê-la. Um bom nível de concentração permite ao atleta uma tranquilidade maior no momento da tomada de decisão.

A mentalização é considerada hoje uma das ferramentas essenciais no desenvolvimento da preparação psicológica e apresenta inúmeras possibilidades de utilização, desde a visualização de estados emocionais favoráveis, auxílio na recuperação de atletas lesionados até o aperfeiçoamento de gesto técnico esportivo.

O estabelecimento de metas é uma habilidade mental simples, eficaz e desconhecida por muitos atletas. Muitos nunca estabeleceram metas subjetivas e objetivos, de curto, médio e longo prazo.

E, por último, a autoconfiança cujo excesso ou falta podem ser extremamente prejudiciais ao desempenho. Um atleta autoconfiante acredita ser tão capaz de atingir seu objetivo que lutará arduamente para consegui-lo.

Assim como a parte técnica/tática e física, o treinamento de tais habilidades mentais deve ser sistemático e incorporado ao dia-a-dia do atleta para que sejam automatizadas. Desta forma, o atleta estará mais bem preparado para buscar o máximo de seu rendimento.

Obs: os textos dos colaboradores são de inteira responsabilidade dos mesmos e não sofrem qualquer tipo de modificação.

Formação Esportiva · Mestres do Basquetebol

Princípios para se ensinar o basquetebol segundo John Wooden

Amigos do Basquetebol

John Wooden foi sem dúvida um dos maores técnicos de basquetebol conquistando inúmeros títulos e trabalhando com astros do basquetebol como Kareem Abdul Jabar, Marques Johnson, Bill Walton, Lenny Wilkens, Dave Cowens, entre outros.

Mas mesmo trabalhando com “feras” Wooden nunca deixou de se preocupar com o lado pedagógico do jogo, sendo um dos grandes inspiradores de técnicos de categorias de base, inclusive eu que tive a honra de conhecê-lo pessoalmente em 1975 na UCLA.

Wooden considerava que para ensinar um grupo de jovens a jogar basketball há cinco princípios básicos:

1 – Trabalho duro – Não há substituto para o trabalho. Você e seus jogadores devem trabalhar duro, pois só assim e com um bom planejamento seus objetivos serão alcançados. Atalhos e caminhos fáceis não produzem os resultados desejados;

2 – Entusiasmo – Você e seus jogadores devem ter muito entusiasmo. Se não for assim é melhor que você e os jogadores procurem outra profissão ou atividade. O entusiasmo aflora naquele que o tem e contagia, inspira e estimula outras pessoas. Seu coração deve estar no seu trabalho se você pretende progredir, melhorar e aprender mais;

3 – Condição mental, moral e física –  A condição mental e moral de seus jogadores são de extrema importância pois elas determinarão a condição física se eles forem trabalhadores e entusiasmados. Um jogador sem uma boa condição mental e moral não progredirá fisicamente. O exemplo moral e mental estabelecido pelo técnico tem uma forte influência no tipo de jogadores que ele produz e, mais importante, no tipo de caráter dos jovens que futuramente terão outras pessoas sob sua liderança;

4 – Fundamentos – Através dos ensinamentos do técnico, os jogadores terão condições de aprender de forma adequada a execução dos fundamentos do jogo. Eles devem saber reagir prontamente, sem tempo para parar e pensar no que fazer. No basquetebol há uma máxima que é incontestável – aquele que hesita está perdido.  É importante que os jogadores tenham condições de executar os fundamentos de forma rápida.

5 – Desenvolvimento do espírito de equipe – O técnico deve usar tudo o que for possível em termos de psicologia e utilizar todos os meios disponíveis para desenvolver o espírito de equipe. O trabalho em equipe e o altruísmo devem ser encorajados em todas as oportunidades e cada jogador deve ser solidário e se for necessário, sacrificar-se para o sucesso da equipe. Egoísmo, inveja e críticas podem destruir o potencial de qualquer equipe. O técnico deve estar sempre atento e constantemente alertar e prevenir  esse tipo de atitude antes que o problema se avolume.

Palavras mágicas de um sábio do basquetebol.

Tradução e adaptação de parte do texto contido no livro – Practical Modern Basketball de John Wooden.

Leia também:

Sábias palavras de um mestre (publicado em 7/04/2011)

https://vivaobasquetebol.wordpress.com/2011/04/07/sabias-palavras-de-um-mestre/

 

 

 

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Com tabelinha ou sem tabelinha?

Amigos do Basquetebol

Há anos (e muitos anos) acompanho a discussão sobre as regras do minibasquetebol vigentes no Brasil, especialmente nos campeonatos em São Paulo.

Desde o início desse movimento, São Paulo resolveu correr na contramão do que vinha sendo praticado no mundo todo, adotando regras próprias que nem sempre privilegiavam a criança e sim as conveniências dos clubes e, pasmem, dos técnicos que parece terem como maior interesse a conquistas de títulos e não a formação de futuros atletas.

Recentemente, em outra reunião promovida pela Federação Paulista de Basketball, para discutir o assunto, foi aprovada, a partir de votação entre os presentes a retirada da tabelinha com o aro a 2,75m do chão para que as crianças que disputam os campeonatos sub-12 joguem com o aro “normal” que fica a 3,05m do chão.

Foram várias justificativas. Entre elas a falta de profissionais para colocar e retirar a tabela e a principal delas a normativa da FIBA que agora regulamenta esta altura para a referida faixa etária.

No entanto, nas mesma normativa usada como justificativa a FIBA recomenda que não haja cesta de 3 pontos, que não se marque por zona e que não haja tempo para a posse de bola.

Ou seja, a normativa serve para um aspecto mas não para outros.

Tentando alertar os técnicos sobre os malefícios desta medida os representantes da Liga Estudantil de Basquetebol entregaram uma carta aos presentes que passo a divulgar agora com a devida permissão da Liga

Prezados Senhores;

Por meio deste oficio vimos apresentar os motivos pelos quais a LBE (Liga de Basquete Escolar) acredita na importância da manutenção da regra da altura do aro de 2,65 (2,75) na categoria de Mini pela FBP (Federação Paulista de Basketball) no campeonato de 2016.

O Mini é a fase mais importante no processo de formação dos atletas de Basketball, por ser a primeira categoria, é nesta idade que o atleta inicia a aprendizagem das habilidades e fundamentos do jogo e ao mesmo tempo toma gosto e motiva para o processo de treinamento e competição, adquirindo experiências ricas para seu desenvolvimento biopsicossocial e contribuindo para sua formação integral.

Pelo caráter educacional e nesta categoria também que os atletas aprendem os valores inerentes ao esporte e a vida como: respeito, disciplina, comprometimento, companheirismo e outros que fazem que o nosso esporte seja reconhecido na formação do cidadão e do atleta.

Durante vários anos temos visto uma grande incoerência e desordem com relação à uniformidade de regras visando o objetivo principal da categoria que é a iniciação a vida esportiva do Atleta sem pressão e demandas excessivas.

Em 2011 a FIBA Américas lançou um estudo/documento (anexo) visando à padronização enorme na faixa etária de introdução do jogo às crianças, uma das recomendações e que a partir dos 12 anos as crianças devem jogar com aro em altura máxima e com bola n° 5.

Essa mudança foi adotada em federações e confederações, em outros países, sendo motivo de crítica pelos técnicos e especialistas na área. Sua aplicação foi prejudicial aos objetivos da categoria, no que diz respeito ao desenvolvimento do gesto técnico e fundamentos do jogo como também na motivação em alcançar o objetivo principal do jogo, a cesta. Outro motivo é o cerceamento a participação na categoria de atletas mais novos de 10 e 11 anos, pois estes teriam uma dificuldade maior em participar do jogo com o aro na altura máxima. Impedindo assim a formação de equipes de idades mescladas (fato que ocorre em algumas das nossas equipes).

Com estes problemas apresentados a Confederação Argentina (consulta ao Prof. Ricardo Bojanich) voltou atrás na determinação da FIBA e a competição de 2016 terá a altura de 2,65 para crianças até 12 anos. Os atletas com uma estatura acima da média poderão jogar na categoria de 13 anos onde a altura do aro é de 3,05.

Vemos que a decisão da FPB em mudar a altura do aro de 2,75 para 3,05 nesta idade esta embasado neste documento da FIBA Américas e na argumentação dos técnicos da categoria relatando a facilidade de alguns atletas com a estatura acima da média.

Neste sentido descrevemos alguns pontos a serem relevados para manutenção da regra da altura do aro em 2,75 para o campeonato de 2016:

1 – Problemas no processo de ensino do gesto técnico do arremesso. Erros da aprendizagem do gesto técnico do arremesso em função da falta de força na execução no aro da altura máxima.

2 – Cerceamento e dificuldade aos atletas com média de altura inferior de participar com efetividade e motivação na competição.

3 – Cerceamento e dificuldade aos atletas mais novos (10 e 11anos) de participar com efetividade e motivação na competição. Impossibilitando a participação de um número maior de atletas e equipes

4 – Incoerência em seguir as normas da FIBA para a altura do aro e não respeitar as outras regras como:

– Impossibilidade de utilização de defesa por ZONA (permitido somente a defesa individual);

– Lance livre na distância de 4 metros;

– Não existência de cesta de 3 (três) pontos; (Proporcionando que toda cesta de campo tenha o valor de 2 pontos);

– Não existência do Bônus (lance livre extra quando na falta no ato do arremesso);

– Rodízio de jogadores durante os quartos;

– Não existência de prorrogação quando no empate no tempo normal;

– Não existência da regra de 24 segundos e de posse de bola;

Os motivos acima nos levam a crer que a razão da mudança está relacionada, somente com o resultado esportivo em curto prazo. Pois as outras determinações das regras de Mini basquete da FIBA, não são considerados pela Federação e as equipes participantes.

A intenção de elevar a altura do aro restringe o desenvolvimento técnico da maioria dos atletas nesta idade, privilegiando a poucos atletas com altura acima da média, sendo que estes atletas têm a possibilidade de jogar na categoria de 13 anos com altura do aro a 3,05. 

Pensando no desenvolvimento técnico, motivação e futuro do basquete no estado e país, acreditamos que a mudança é prejudicial à evolução e formação de atletas nesta faixa etária.” 

OBS: o texto da carta é de inteira responsabilidade da Liga Estudantil e não sofreu alterações ou correções no momento de sua publicação.

Como um dos defensores da prática do minibasquetebol que privilegia a criança e a participação devo expressar minha total concordância com esta carta e espero que um dia os nossos profissionais pensem mais nas crianças e menos em suas conveniências ou circunstâncias momentâneas.