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De Elzinha para Norminha: uma justa homenagem

Amigos do Basquetebol

Em uma época que nossos jovens conhecem mais da NBA do que do nosso basquetebol é sempre bom resgatar a memória do nosso esporte e homenagear nossos e nossas grandes atletas.

Desta vez a homenagem veio de uma das grandes “basqueteiras” deste país para outra gigante do nosso esporte.

É a homenagem que a querida amiga Elzinha fez para outra querida amiga Norminha. Vale a pena ler.

Norma Pinto de Oliveira, a “Norminha do basquete” está para o esporte que escolheu assim como Maria Ester Bueno para o tênis e João do Pulo para o atletismo. Essa afirmação não é minha: mais de mil e estrangeiros contam a história de sua carreira aos pedacinhos, sempre com apelidos simpáticos, aplausos ou elogios.

“Norminha, a grande revelação” (Gazeta Esportiva, S. Paulo, 1960)

“Campeã do decatlo” (Jornal do Brasil, Rio, 1962)

“A consagrada atleta” (Jornal dos Sports, Rio, 1963”

“La perla blanca” – “ A pérola branca” (La Crônica, Lima, Peru, 1965)

“Agilíssima e inteligente, Norminha és um espetáculo a parte…” –( Expresso, Lima, Peru, 1966)

“Todos observan un tiro de media distancia ejecutado por Norminha…” (Jornal não identificado, México, 1967)

“Norma provou que está em boa forma e vai ao Mundial” (Diário Popular, S. Paulo, 1970)

“Norminha… quase tão eficiente quanto Pelé” (revista Veja, S. Paulo, 1971)

“Os dribles e os jumpings de Norminha fizeram delirar a assistência presente ao ginásio do Ibirapuera” (última Hora, S. Paulo, 1971)

“Norminha mostro sus grandes cualidades” – “Norminha mostrou suas grandes qualidades” (La Prensa, Buenos Aires, 1972)

Além dos jornais havia a forma física: suas marcas em treinos serviam de parâmetro para os vestibulares da Faculdade de Educação Física da Universidade de São Paulo. E de suas colegas de seleção era exigido nos treinos apenas 70% do seu rendimento, também utilizado como parâmetro

Ela foi também tricampeã carioca de decatlo (feminino não olímpico) e vencedora do Campeonato Universitário de Natação (Costas, 100m, Rio, 1965) sem deixar de, simultaneamente, jogar basquete. Os títulos que Norma teve nesse esporte vêm a seguir, pois não caberiam neste prefácio. As aventuras de sua vida, toda dedicada ao esporte, recheiam de emoções todo este livro.

O segundo motivo que me fez levar em frente o projeto deste livro foi evitar que se perdessem, por falta de registro, os conhecimentos teóricos e práticos ( e a história) de uma jogadora-atleta que esteve presente em nada menos do que 372 partidas da Seleção Brasileira de Basquetebol Feminino, durante dezesseis anos ininterruptos; jogou mais de mil partidas em campeonatos regionais, jogos abertos do interior, campeonatos estaduais e brasileiros; auxiliou técnicos (chegou por seis meses ser técnica de seu próprio clube), foi condicionadora física; lecionou basquete durante oito anos numa faculdade de Educação Física paulista, foi técnica da seleção brasileira de paraplégicos e é hoje, ativa em sua academia de ginástica modeladora, ginástica terapêutica para pós-safenados, pré ou pós parto e ginásticas corretiva da coluna.

Formada em Educação Física pela Faculdade Federal do Rio de Janeiro, Norminha fez ainda um curso de Fisioterapia em Buenos Aires, com pó professor Luiz Rodrigues e outro de Pedagogia da Faculdade de Educação e Cultura de São Caetano do Sul.

O diploma mais importante de Norma: ela é gente, formada na difícil escola da vida.

Lais de Castro

São Paulo, outono de 1984

Uma explicação

Dez e meia da noite, dia 21 de maio de 1971. No ginásio do Ibirapuera em São Paulo, corre o campeonato Mundial de Basquete Feminino. O marcador registra: Brasil, 75 pontos; Japão 76. O cronômetro está parado. A respiração das quase vinte mil pessoas que lotam o ginásio também. Há um misto de emoção, esperança e muito medo pairado no ar. Faltam apenas dois segundos para terminar a partida. O Brasil tem posse de bola. O juiz apita. Maria Helena Cardoso passa a bola para Nilza, que atira para a cesta. O tempo está esgotado mas a bola precisa terminar a sua trajetória. Se ela atravessar o aro fatal serão mais dois pontos, vence o Brasil. Essa caminhada das bola parece durar infinitamente. Todos os olhares convergem para um só ponto. O silêncio pesa no ar.

CESTA!

O ginásio explode. A seleção do Brasil ganhou mais uma batalha. As atletas japonesas choram. As brasileiras também mas de alegria. Enquanto vão se tornando heroínas para o público, o rádio,a tv, os jornais as revistas que até agora não tinham tomado conhecimento de sua existência. Mas, embora a vitória tivesse um sabor definitivo, o mundial de 71 estava apenas começando.

Uma das nossas jogadoras, Norma Pinto Oliveira, então com vinte e nove anos, onze de seleção, quando viu a bola atravessar o aro sentou-se na quadra e chorou copiosamente. Não conseguia falar, dar entrevistas. Apenas chorava. Como choraria se o seu time da época o São Caetano (SP), vencesse um jogo secundário num campeonato regional “ com três gatos pingados na arquibancada como a gente está acostumado a jogar”; diria ela.

Ela chorava porque vencer a seleção do Japão é um grande feito, pela emoção do estádio lotado ou porque na época o mundial era o mais importante torneio feminino de basquete do mundo. É preciso lembrar que até então, o basquete feminino não era considerado esporte olímpico (ou seja, não existia essa modalidade nas Olimpíadas).

Norminha, por isso, não teve a alegria de participar de uma.

Nem Norminha talvez soubesse – ela soube depois – mas aquelas lágrimas eram por ver triunfar, mo Brasil, o esporte ao qual ela dedicaria (e continuaria dedicando) grande parte e sua vida.

É a histórias dessa vida, com todas vitórias e derrotas, erros e acertos, momentos de glória, cansaço, alegria ou tristeza, que vamos percorrer agora através da palavra da própria Norminha, peça fundamental na vitória que acabamos de contar, contra o Japão.

Não pretendemos contar uma história completa e nem cronologicamente perfeita, já que ela sai – sincera e livre – de nossa campeã. Ela com certeza dará mais ênfase aos pontos que mais a emocionaram e poderá, inadvertidamente, pular partes que (talvez ela nem saiba) não a tenham tocado tão profundamente.

Fala Norminha!

Nasce uma atleta 

Sempre me dei muito bem com o esporte. Meu pai foi boxeur e minha mão jogava tênis antes de vir da Argentina – onde nasci – para Jacareí, no Vale do Paraíba, SP, onde fui criada (depois de alguns anos em Porto Ferreira, Alta Paulista, SP). Quase bebê ainda eu já me afogava pelas piscinas portenhas. Talvez tenha sido por isso que quando cheguei ao Brasil e entrei na escola, escolhi logo a natação como “meu” esporte. Naquela época não havia poluição e nós tínhamos aulas no Rio Paraíba (hoje morto). Mas logo de manhã já começava a minha atividade: eu ia correndo para a escola. Eram 2 Km todos os dias.

Corria o ano da graça em 1958. Meus professores de Educação Física, um casal fantástico – Rudyl e Juvenal Soares – me escalaram para a seleção de voleibol da escola porque acharam que eu tinha futuro. Eu acabei “pegando” também a de basquete. Nestas duas seleções tive as primeiras vitórias de minha vida nos “Jogos Estudantis do Vale do Paraíba”. Por isso fui convocada para jogar na equipe de São José dos Campos, cidade vizinha a Jacareí. Era uma equipe forte que competia com o Tietê, Corinthians, Pinheiros, com o excelente time de Sorocaba co o extinto Seri (Sociedade Esportiva Recreativa do Ipiranga). Eu tinha então, dezesseis anos. Porém naquela época não existia as categorias que hoje existem muito bem divididas por idade. (…)

Naquela época, ou você jogava bem e aparecia na equipe principal ou ia para casa. Não havia chances de sobrevivência para quem trabalhasse a bola mais ou menos. Era sim, ou não.

Comigo aconteceu que foi sim. Mas não sem esforços ou sacrifícios. E u não quero fazer demagogia, mas tenho que voltar um pouco no tempo para explicar algumas coisinhas. Meu pai era brasileiro, minha mãe é Argentina. Eles se casaram e lá tinham uma boa situação. Entretanto meu pai perdeu tudo e eles vieram para o Brasil recomeçar do zero. Minha mãe é forte, sempre foi. Meu pai também era muito corajoso. Herdei deles, posso garantir, o horror a qualquer tipo de derrota, que me acompanha até hoje. Só que nesse novo começo da nossa família, muitas vezes eu não tinha o que comer. Roubava pimentão do vizinho para comer com sal e, uma vez, estava com tanta fome que subi numa jabuticabeira e só parei de chupar jabuticabas ao sentir os primeiros sinais de indigestão. Só estou contando isso para dizer que eu, embora medisse 1,65 m (era alta para a minha idade)era magrela e miúda de corpo. A bola de basquete naquele tempo era de couro e “crescia” sob o sol ou sob a chuva. E o aro já estava como hoje, a 3,05 de altura. Imagine, então, eu lá no time de São José, treinando com gigantes como o Edvar, o Marson, o Rafael e o Bombarda (todos da seleção brasileira), tentando imitá-los na base do “quero fazer o quer eles fazem”.

Fiquei neste time uns sete meses e cheguei a participar de campeonatos regionais. Então o Orlando Valentim, respeitado técnico de basquete na época, me indicou para o Vicente Merlino, um dos diretores do Seri (Sociedade Esportiva Recreativa Ipiranga, São Paulo) dizendo que “dentro de alguns meses eu seria uma das maiores jogadoras do país”. Na verdade esse homem me descobriu.

Para treinar no Seri eu submeti minha mãe a uma dura prova de amor à mim e ao esporte amador do Brasil … Era uma maratona de ônibus, diária, que nos deixava exaustas: o primeiro de Jacareí a São Paulo; o segundo de , da praça João Mendes (no centro da cidade) até o Ipiranga, onde ficava o clube; o terceiro, no fim do treino, até a agência do Pássaro Marron, na Av. Rio Branco, ônibus que finalmente nos levaria de volta a Jacareí.

Quantas vezes minha mãe e eu dormimos sentadas naquela agência, esperando o primeiro ônibus da manhã para a nossa cidade … é que eu treinava mais que o nosso horário apertado permitia e perdia a última condução da noite. E a dona Amélia, super-mãe, sempre de bom humor, me incentivando.

Minha mãe nunca me viu perder um jogo. Todas as vezes que estava na platéia, meu time ganhava. Dava uma sorte !

No Seri, nessa correria, fiquei mais de seis meses. Mas foi lá que participei do estadual de 1958. E ganhamos. Foi ainda lá que perdi a chance de ir para o pré-pan, que escolheria as atletas que iriam, representando o Brasil, no Pan-americano de Chicago em 1959. Não pude ir porque era Argentina e não havia mais tempo para a minha naturalização que foi providenciada, em seguida pela Confederação Brasileira de Basquetebol.

Quando “virei” brasileira eu já era jogadora do Votorantim de Sorocaba (SP). Fui, convidada. E não sem problemas.

O rolo compressor

Não havia consciência de pioneirismo do Votorantim. Havia, sim, um pioneirismo intuitivo muito marcante. A fábrica de cimento Votorantim dava uma verba para o time ( e a prefeitura de Sorocaba também) o que era inédito naquele tempo. Hoje as empresas se interessam pelo esporte amador, (ainda bem), mas têm retorno em publicidade, simpatia, etc. Naquela época empresa nenhuma queria dar nada. A Votorantim foi, portanto pioneira nisso.

O Campineiro, por sua vez, formou dois times de basquete feminino: um das “cobras” (adulto) e outro das “minhoquinhas” (crianças). Ele estava inaugurando, sem saber, o trabalho de base no Brasil, criando as categorias esportivas.

A esse time é que eu cheguei ainda “verde”, aos dezessete anos. No meu primeiro dia , só consegui parar de trinar quando vomitei de cansaço. Sob os olhos do técnico. Porque ele queria que agente tivesse uma estupenda forma física, ainda que adquirida de forma não adequada. Porque o Campineiro realizava um trabalho empírico, sem bases científicas; mas recheado de garra. Depois do treino agente tomava suco de laranja, que ele fazia à mão. E todas nós do Votorantim _ mesmo cometendo a loucura de dar cinqüenta voltas na quadra para começar o aquecimento e, em seguida, subido e descendo várias vezes os quarenta degraus da arquibancada do ginásio de esportes – fomos parar na Seleção Brasileira. Pela abnegação daquele querido alucinado por basquete.

A primeira seleção brasileira

O Votorantim não tinha adversários nos campeonatos estaduais a não ser o time de Piracicaba, também celeiro da seleção nacional. No primeiro ano lá ganhamos o estadual de 1959. Treinávamos arduamente, com o Campineiro nos fazendo aproveitar cada segundo da partida, coisa que os outros técnicos da época nem pensavam em exigir. Naquele tempo era raríssimo um time fazer ais de 60 pontos nos quarenta minutos regulamentares (20 por 20) de um jogo (conseqüência das próprias regras do basquete, como já disse).

Pois bem,: nós fazíamos mais de 100 pontos com alguma freqüência. Por isso eu chamo o Newton Corrêa Jr., aquele nosso técnico Campineiro, de “Einstein do basquetebol”.

Ao mesmo tempo, era ele que – quando não estávamos treinando ou jogando – me mandava limpar a grande quantidade de troféus que o Votorantim já garantira, que estava guardado numa sala embaixo da arquibancada do ginásio de esportes de Sorocaba. Naquele tempo tudo era bem diferente, a gente suava na quadra e fora dela…

Enquanto eu limpava os troféus, lembro bem, sonhava jogar na seleção brasileira.

A convocação para a seleção veio. Mas havia doze vagas e dezenove atletas para brigar por elas. E, claro, as mais experientes tinham maiores chances. Eu não tinha idéia do quer seria essa “briga”. Era “crua”, desinformada. Até por isso, talvez tenha me despreocupado um pouco mais que as outras convocadas. Eu me fixei mesmo nos Jogos Abertos do Interior que tínhamos que ganhar pelo Votorantim antes de ir para a seleção.

Viajamos para Campinas, sede doa jogos, para brigar por mais um troféu que depois, na certa, eu teria que limpar… Não me lembro bem se foi no aquecimento do segundo ou terceiro jogo. Só me lembro que subi numa bandeja (…) e quando desci _ alguém dxa arquibancada tinha devolvido uma bola _ eu pisei na bola literalmente. Tive uma luxação no tornozelo e adeus: foi preciso engessar.

“Logo agora que tenho que me apresentar à seleção”, eu pensava, entre triste e furiosa, no inconformismo gostoso de quem tem dezoito anos. Foi a cabeça fresca, típica dessa idade, que me fez arrancar o gesso dois dias depois, imobilizar o pé com faixa e esparadrapo e com pó pé sob o efeito de uma infiltração anestésica fortíssima, entrar na quadra para participar da final dos Jogos Abertos do Interior contra Piracicaba.

Perdemos o jogo e eu quase perdi o pi. Quando tirei a faixa meu pé era uma pasta preta, minha perna foi inchando que eu tinha elefantíase. Mesmo assim fui para o Rio e naquele estado lastimável me apresentei ao técnico da Seleção Brasileira de Basquete Feminino, 1960, Antenor Horta. Durante os dez primeiros dias, enquanto as minhas companheiras treinavam e se adaptavam umas às outras eu fiquei tratando do pé. Na maior angústia.

Quando cheguei a entrar na quadra pela primeira vez, subi numa outra bandeja e a Neucy Ramos (que era craque) me deu uma entrada violenta: o que aconteceu mesmo ? Torci o outro pé. No dia seguinte fui com os dois pés imobilizados. Mas fui. Com o “demônio no corpo”. Grudei na Neucy de-não-deixar-ela-andar !

“Posso não fazer uma cesta, mas ela também não faz”, pensava então.

Eu não sabia, mas estava descobrindo uma característica que iria marcar toda a minha carreira de jogadora: de marcar e não deixar andar a adversária. Marquei, sem falsa modéstia, todas as grandes jogadoras do mundo da minha época.

Consegui minha vaga entre as doze (como reserva) e fui para o sul-americano do Chile em 1960. De cabeça tranqüila, pois não tinha consciência do que era estar lá com a camisa do Brasil. O técnico me mandou entrar – pela primeira vez – no segundo tempo de um jogo contra o Paraguai. Virei titular. Não saí mais até sermos campeãs, como fomos.

Ganhamos o sul-americano e eu ganhei dos jornalistas apelido de “La niña voadora” (a garota voadora), porque fazia muitas bandejas aéreas. Fui considerada a jogadora-revelação do campeonato. E só deixei de ser titular da seleção brasileira quando resolvi sair espontaneamente , em 1976.

Não sem antes conseguir a proeza de , no campeonato Mundial do Peru, (tendo como técnico o Almir de Almeida) ter sido considerada por toda a crônica especializada uma das cinco maiores jogadoras do mundo. Entre essas cinco não havia nenhuma outra jogadora da América do Sul, nem do Norte e nem Central.

Vermelho e preto

Como era uma jogadora de muito destaque no Votorantim de Sorocaba, acabei sendo convidada para ir jogar no Flamengo do Rio de Janeiro. Naquela época não existia o pagamento de “luvas”, nem “gordos” salários mensais. A gente ganhava pouco e jogava muito, era muito feliz assim mesmo. Aceitei e fui embora, Com uma mão na frente, outra atrás.

Lá, o meu primeiro técnico foi o Canela (Togo Renan Soares) que depois seria bi-campeão mundial com o basquete masculino do Brasil. Com ele agente já entrava na quadra sabendo exatamente o que cada jogadora adversária ia fazer _ “marque fulana”, ele dizia, “mas cuidado ela dribla, faz o corte e passa” _ e isso era meio caminho andado. Também o Flamengo tinha montado um time forte (com Angelina, Delcy, Didi, Ivani, Regina, Átila, Célia, Eny, Doranita e Amelinha _ mais tarde viria Marlene) e era dono de uma torcida que empurrava as atletas para a vitória. Fomos campeãs cariocas de 1962.

Naquela época, no entanto, no Rio de Janeiro, importante mesmo era participar dos jogos da Primavera, que toda imprensa e o público prestigiavam fanaticamente. Acho que por isso que D. Berta, diretora esportiva do Flamengo, me convenceu a participar da prova do decatlo (feminino, não-olímpico). Ou foi por causa de minha forma física, não sei. O que sei é que, sem treinar, fui tentar defendera camisa vermelha e preta nas dez modalidades que compunham a prova: lance-livre, natação, salto em altura, ginástica olímpica de solo (no chão), arremesso de dardo, arco-e-flecha, tiro-ao-alvo, corrida, ciclismo e saltos ornamentais. Bem “leve” como se pode ver…

Passei pelas provas de natação e lances-livres (em basquete) tranqüilamente, com primeiro lugar nas duas. Consegui também uma vitória nos saltos ornamentais e, por incrível que pareça, na ginástica olímpica (tinha treinado um pouco para o vestibular). No tiro, brilhou minha estrela de sorte: apesar de não saber atirar, garanti uma segunda colocação. Estas foram as provas do primeiro dia, das quais sai em vantagem. No segundo dia, entretanto, eu sabia que a coisa ia piorar. As adversárias eram fortes e eu nunca tinha atirado uma flecha em toda a minha vida. Bicicleta? Só tinha andado, quando era criança, nas das amigas…

Disse, repito e vou repetir pela vida afora: entro numa competição para ganhar. (Essa história de que o importante é competir, para mim, soa falsa. No calor da luta, todo mundo quer vencer).

Por isso mesmo, naquele dia, mesmo sabendo que as campeãs cariocas de arco-e-flecha e ciclismo estavam competindo, eu ia dar tudo de mim. Como sempre fiz na quadra de basquete.

No entanto, cansada das provas da véspera, quando peguei no arco para atirar minha primeira seta e não sabia o que fazer com aquilo na mão tive vontade de chorar. Mandei a primeira flecha tão longe do alvo que ela foi parar na rua! E quando larguei o tirante, ele raspou no meu braço e ralou-o todo, saiu sangue… Aí me deu raiva: ninguém tinha me avisado que agente precisava de uma luva longa, de couro, para praticar esse esporte. Joguei todas as flechas e só atingi o alvo com a porcaria de uma. Bem longe do centro…

Em compensação ganhei as quatro provas do segundo dia: a corrida (100m rasos), o salto em altura (pulei 1,35m na segunda tentativa), arremesso de dardo (21,40m) e, acredite se quiser: o ciclismo.

A prova de ciclismo, naquele tempo, era por cronômetro. Minha adversária mais séria era a Ana Maria Paulino (campeã carioca, do clube de ciclismo Monark, Rio). E se eu perdesse aquela prova, perdia o decatlo. Ela saiu e fez o percurso de 3.100m me 2 minutos, 22 segundos e 25 décimos. Meu Deus, eu nem tinha bicicleta! Pedi a bicicleta da Ana Maria emprestada. Subi e saí feito louca. Usei a única coisa que saberia usar naquele esporte: minha força muscular. Para fazer a primeira curva quase que fui para o chão. Continuei, porém, o mais rápido que pude. Nos 100m metros finais eu fechei os olhos e pedalei. Concluí o percurso em 2 minutos, 22 segundos e 22 décimos! Ganhei da campeã carioca com a bicicleta dela. Quase ganhei junto uma inimiga, mais fui a primeira colocada no decatlo.

No dia seguinte precisei tomar soro por causa desgaste físico a que tinha me submetido. E, como prêmios, recebi uma bicicleta Calói, uma enciclopédia Delta Larousse, um tênis não me lembro de que a marca…

As coisas eram feitas mesmo por amor à arte. Em 1963, lá estava eu, competindo na prova de decatlo pelo Flamengo. Então eu já sabia manejar o arco e tudo. E não é que ganhei?

Em 1964, confesso que foi bem mais difícil. Mas a verdade é que acabei tri-campeã de uma modalidade a que me dedicara por brincadeira.

Fiz isso sem deixar de jogar basquete. Em 1963, na Seleção Brasileira, fui campeã sul-americana. Em 1964, com a Seleção Carioca, campeã brasileira, título que se repetiu em 1965 e 1966.

O decatlo ficou nos jornais da época e nas minhas recordações. Considerada muito pesada, essa competição foi extinta logo em seguida.

Os anos férteis

Em 1967, a Seleção Brasileira de Basquete Feminino ganhou o pan-americano em Winnipeg (Canadá) e o sul-americano de Cali (Colômbia). Eu estava nos dois, titular o tempo todo. Foi neste ano ainda que recebi a medalha do Mérito do Basquetebol, honraria reservada pela Confederação Brasileira de Basquetebol a pouquíssimas atletas e beneméritos deste esporte.

Foi em 1967 também, que me formei em Educação Física pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, naquele tempo chamada Universidade do Brasil. E, embora imensamente do Flamengo _ a torcida, os dirigentes, as colegas do time _ era isso que eu esperava para poder voltar a São Paulo, para onde já havia se mudado a minha família (que, eu sabia, precisava de mim).

O convite adequado para as minha necessidades veio da Prefeitura de São Caetano do Sul _ cidade próxima à São Paulo _ que resolvera investir no basquete. Só que lá não havia um time com infra-estrutura, técnico, nada. Eu vim para jogar e acabei, durante boa parte de 1968, sendo técnica da equipe.

Ganhamos os Jogos Abertos do Interior e o campeonato regional (junho de 68), mas a carga de acumular as obrigações de jogadora e técnica era muito pesada. Começamos a procurar um técnico. Foi quando surgiu o Waldir Pagan Perez, que eu conhecia dos velhos tempos de Jacareí. Sem que o Waldir modificasse uma virgula do nosso treinamento, nós ganhamos _ Delcy, Angelina (portuguesa), Odete, Regina, Didi, Angelina Bizarro, Elzinha, Marlene, Rosália e eu _ todos os títulos que disputamos em 1969.

Em 1970, fomos convocadas para a Seleção Brasileira que disputaria o sul-americano na Bolívia. Forcei um pouco a barra e Waldir acabou indo como técnico. Ele já tinha se aprimorado, feito m curso de basquete nos Estados Unidos.

Na verdade, eu fui dando dicas: conhecia todas as atletas sul-americanas, que já tinha enfrentado várias vezes. Conhecer as adversárias é básico, porque agente tem que estar preparada para não ser surpreendida na quadra. Embora um jogo seja sempre diference do outro ( mesmo com as mesmas atletas, há certos pontos que agente pode prever ou antecipar). A seleção soviética, sob a técnica Ljdia Alejeeva, tem jogadas ensaiadas para cinco, dez, quinze, vinte, vinte e cinco e trinta segundos. E elas fazem estas jogadas como relógios. Acho que vai demorar muito tempo para que alguém possa destruir essa perfeição. Entrar na quadra sabendo como a adversária vai se comportar, facilita as coisas. Posso dizer que sei, até hoje, de cor como tinha de marcar essa ou aquela jogadora desta ou aquela seleção. E que isto _ diante as maiores craques do basquete feminino do mundo _ sempre foi a base do meu trabalho.

Vou falar um pouco destas grandes atletas e como eu as enfrentava no próximo capítulo. Mas não sem antes dizer que fomos campeãs sul-americanas na Bolívia. Como já havíamos sido em 1968, em Santiago do Chile. Não sei se seria falta de modéstia dizer que o Brasil tinha, na minha época um time invencível do lado de baixo de Equador. Houve sim uma hegemonia muito grande do nosso basquetebol pela América do Sul afora, na década de 60 e princípios dos anos 70.

Aliás em 1965, a Seleção Brasileira foi escolhida pela FIBA _ Federação Internacional de Basquetebol _ para fazer duas partidas com a Tchecoslováquia. Nessas paridas o COI _Comitê Olímpico Internacional_ decidiria se o basquete feminino já tinha nível técnico para fazer parte das Olimpíadas. Perdemos essas duas partidas, mas sempre de muito pouco. No entanto, nessa mesma viagem, perdemos apenas para a Alemanha Oriental. Ganhamos das seleções da França. Itália, Alemanha Ocidental, Espanha e Portugal.

Não que as européias jogassem menos. Elas tinham um estilo de jogo mais técnico, simples e objetivo, um esquema tático mais rígido. A Seleção Brasileira tinha um estilo de jogo-show, menos duro, mais versátil e, muito aqui entre nós, tínhamos uma facilidade de assimilar as coisa com mais rapidez. Como a tal história de aprender a marcar cada uma das adversárias muito rapidamente.

A despedida

Todo atleta tem que saber a hora de parar. Parar muito cedo é desperdício de talento. Parar quando a noite é alta, deixar o seu declínio físico ficar público, é expor-se ao ridículo. A frase “ela não é mais a mesma” é o que pior pode se ouvir dentro de uma quadra.

Eu sempre que ia para um treino, só tinha hora para começar. Nunca pensava na o hora em que o treino acabaria. Quando me dei conta de que estava preocupada com a hora do fim do treino, concluí que deveria “pendurar o tênis”.

Não houve nenhuma despedida, nenhuma festa, nenhum jogo especial. Eu simplesmente deixei de vestir o uniforme e entrar na quadra. Não vou dizer que foi fácil. A convivência com a bola, a alegria da vitória, a dureza da derrota fazem parte da gente. Para um esportista viver sem jogar é viver com um numero muito menor de emoções.

E quantos convites do tipo “joga só mais três meses” a gente tem que, contra a vontade, recusar. O lema é não amolecer. Para parar é essencial parar de uma vez, cortar a emoção com um golpe seco, sentir a dor uma vez só.

Pouco depois da minha saída o São Caetano (último time me que joguei) ia disputar uma final dificílima, do campeonato do interior, com o Santo André. Então nosso técnico, Waldir Pagan, me pediu que vestisse o uniforme e fosse para o banco, apenas para fazer uma guerra psicológica contra o Santo André. Eu fiz isso, com a condição de não entrar de maneira alguma. Vi, ali do banco, meu time empatar, ir para a prorrogação e perder. Sei que poderia ter ajudado. Não existem palavras para contar o que senti naquele jogo. No entanto, cumpri minha promessa. Ainda fiquei por ali, no São Caetano uns dois anos. Eu era responsável pelo condicionamento físico da equipe e auxiliar do técnico, depois fui técnica. Não sei se fui ficando por insistência deles, por falta de coragem de sair de uma vez, por hábito… Lá, do lado de fora da quadra era como se eu estivesse dentro…

O apito final do último jogo de uma atleta é melancólico. Não é, entretanto, o apito final de tudo. Há sempre uma maneira de continuar participar deste jogo maior que é a VIDA.

Foto Histórica: Norminha marcando a gigante Semenova (União Soviética) no Mundial de 1971

Foto histórica: Norminha marcando a gigante Semenova (União Soviética) no Mundial de 1971

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